A HERANÇA DO HOMEM QUE NÃO CONSEGUIA MORRER
- OU ENSAIO SOBRE O DESEJO
"Deixa que os mortos enterrem seus mortos"
- Lucas, IX: 59-60
Subtraindo os ares de revelação divina imputados ao mandamento de que o "homem não deve cobiçar aquilo que pertence ao próximo", pode-se extrair uma reflexão bem prática desse valioso, porém pouco observado mandamento. Primeiramente, o desejo sobre um bem alheio, eticamente, já parece faltar com o sentimento nato - quando não corrompido - de justiça, que qualquer ser humano deveria carregar em si. Em segundo lugar, porque o desejo, a solicitude, costuma provocar uma ansiedade, uma espécie de febre até, que consome o tempo e a energia daqueles que o sentem. Não que seja ruim desejar, mas que se tenha cuidado ao escolher o objeto de desejo é fundamental.
O desejo intenso move os seres à cova ou ao paraíso e arrasta uns muitos tantos consigo a partir de seu rastro respectivamente perturbador ou inspirador. Porém, como é mais própria ao ser humano a ascendência do primeiro - haja vista as condições gerais em que se encontra a humanidade -, visitemos a cova das paixões humanas em seu complexo emaranhado de solicitude pela vida - ou, talvez dentro da metáfora que aqui bem cabe: pela morte.
É interessante observar como um presente, dado a alguns a partir da cova, pode, antes mesmo de ser desembrulhado, levar seus beneficiários também à campa. Muitas heranças são assim, principalmente aquelas que devem, pela lógica, ser partilhadas entre irmãos. Umas nem chegam à partilha, antes, dividem, despertam sectarismos e riem com escárnio da mesquinhez que conseguem provocar no peito humano. Gostam de se enxergar ufanas nos olhos ambiciosos de herdeiros que nunca contribuíram para que elas se avolumassem e que também, em hipótese pior, nada tiveram de verdadeiramente afetivo com o ex-dono dos bens.
A vida vai passando, as traças vão roendo, e os metais, enferrujando...
Mas ao leitor deve interessar mais uma boa história, preferível, decerto, à vaga filosofia de alguém sem nome, sem obra e sem academia. Dou-lhe, portanto, um enredo sobre o qual, se não tenho o mérito da real autoria - pois se funda em experiência, não em esforço imaginativo -, também não pode ser tachado ruim ou bom, por ser simplesmente o que é. Fica ao julgamento, no entanto, o jeito do autor contar... Antes, entretanto, deixa-se alegoricamente uma advertência quanto ao conjunto dos fatos.
Embora o frasco receba retoques aqui e ali, o perfume está inalterado: é de flores de velório, com forte essência de parafina branca. Do frasco, mais fiel ao original do que o leitor pode imaginar, sai também uma rouca sibilância de lamentos, preces decoradas e maldizeres, curtidos majoritariamente na angústia, na autocomiseração e na frustração da ganância. Quanta gente morta, meu Deus!
Se o tom que rege esta prosa o enoja, "fôlego", lhe peço, porque a morte, quando encarada fora das solenidades, apesar de ser de causar asco e ânsia, é assunto que deve interessar a qualquer um, e é assunto sério, está na lei do destino e, segundo consta, não há provas cabais que alguém dela escape.
Quando nascemos, o destino sopra-nos infalivelmente ao ouvido: "Tu morrerás!" - contudo a maior parte de nós o ignora. Nesse ignorar se promovem os desfiles funestos de familiares em escritórios advocatícios e cartórios, palcos de muitas pequenas e duras tragédias.
* * *
Mal conhecera o avô. O pai ajudara-lhe a criar uma memória do homem que talvez ele não fora - isso porque todos os fatos à parte deles mesmos são versões que vão se distanciando de sua realidade. De que se lembrava era, de quando bem pequena, mexer enxerida na cômoda do velho Giuseppe. Pegara o chapéu do avô, mas antes de levá-lo à cabeça, fora flagrada pelo pai e repreendida. O avô andava pela casa, estava doente, uma doença que mais parecia ser da alma. Não falava, as pessoas lhe pareciam invisíveis. Certa vez, ela mesma disse-lhe algo a que não obteve resposta. Entre os netos certamente era a mais distante, morava em outra cidade e só visitava os familiares paternos nas férias escolares.
Depois da ocasião do chapéu, da rogativa que ficara no ar, sua última memória era de brincar com uma prima ao redor do caixão do "pai do próprio pai". Tinha quase seis anos e fora a primeira vez que vira de perto a morte. Não a entendera, não se comovera... Mas sentia a comoção do pai, pois finalmente compreendera o significado da palavra avô. E se avô era pai do pai, imaginava como deveria ser ruim perder o próprio pai, mas preferia não imaginar... Ficara com a prima um pouco mais velha próxima do caixão. O corpo era velado no meio da sala da casa que abrigara uma família numerosa: um casal, uma criada - que, como se conta, nasceu ainda na época da escravidão -, e onze filhos completamente diferentes em quase tudo, a não ser pela origem e pela condição que os igualou inevitavelmente por causa desta, a condição de herdeiros.
Chorou-se, rezou-se, enterrou-se... Mas não se deu paz ao morto...
E torturou-se tanto o velho Giuseppe, que certa noite de domingo, 30 anos depois do dia do "suposto" passamento, 30 anos de tortura post mortem - mais comum do que se possa imaginar -, ele voltou. Voltou e apresentou-se à neta, agora uma mulher feita, com espírito de julgamento mais exercitado e conhecedora do nó-cego protagonizado pela herança sem jeito que Giuseppe deixara.
Foi depois da missa das 19h. Beatriz voltou para casa, a duas quadras da pequena igreja de bairro que frequentava. Sentou-se no sofá em frente à TV. Estava só. Veio-lhe um sono suave, incomum. Seus olhos se abriram quase que totalmente lúcidos na mesma sala, ou melhor, numa versão onírica, mas fiel, do recinto familiar. O velho Giuseppe estava no sofá ao lado. Seu jeito de homem duro - que contradizia as descrições paternas - não deixava rolarem suas próprias lágrimas. Um peso de mágoa tornava-lhe tão ou mais denso que Beatriz, que quase podia sentir-lhe a respiração. Havia um grande peso sobre o morto, um peso acumulado em anos, um fardo que não o deixara sequer morrer, e ele queria morrer, como queria...
Sua herança ganhara fama na cidadezinha mineira onde morou por toda a vida. Chegara ao Brasil como imigrante italiano com outros irmãos na segunda década do século XX. Primeiro trabalhara no interior de São Paulo em fazendas de café, onde conheceu a filha de um fazendeiro, seu patrão - para quem não passaria de um desconhecido, não fosse pelo fato de o então moço Giuseppe fugir com a caçula do velho Ribeiro. Fosse outro tempo, teria morrido, seu passamento teria sido encomendado ao diabo pela própria garrucha do progenitor desonrado, mas como o velho já estava condenado por doença de diagnóstico desconhecido, que lhe amarelava os olhos e toda pele, e vez ou outra lhe roubava a lucidez, a fuga foi fácil. Os irmãos de Idalina, menina de não mais do que 14 anos, apaixonados mais pelo jogo do que pela vida ou honra familiar, nem fizeram caso do ocorrido, que só foi mesmo lamentado pela velha Das Dores, mulher de Ribeiro e mãe adotiva da jovem.
O que se contou pela fala da negra que se juntou a eles na fuga para Minas é que a "menina-nem-moça-já-mulher" tinha uma revolta "feroz como chuva morro abaixo", porque descobrira que Ribeiro, seu pai "de sangue e de cuidados", a tivera com mulher de "vida obscura", uma polaca que lhe "deixara os olhos de um azul pálido e as mechinhas de ouro". Segundo também rezava a negra, a menina fora deixada à porta do casal, que a adotou. Para Ribeiro, teria sido receber o que já era seu, enquanto para Das Dores seria o sonho de ter finalmente uma menina. A mãe zelosa que se tornara, que calava inclusive a angústia de saber do caso pelo "cheiro que o delito deixara", escolhera apagar as mágoas que já se lhe vaticinaram no nome de batismo e viver ela a maternidade, como se Idalina lhe fora fruto amadurecido no próprio corpo. Amara-a mais do que aos filhos naturais, que cresceram soltos pela fazenda e mal lhe pediam a bênção.
Um dia, certa tia "amantíssima da verdade", depois de discussão com o irmão doente - por causa de dinheiro - deu indiretas grosseiras e pouco fraternais em Ribeiro. Tão cruel a mulher que toda história da adoção veio à tona, fazendo que a pobre Idalina passasse a sentir um ódio indescritível por seu herói e um sentimento tão confuso em relação à mãe amorosa que não há notícias de que ela mesma o tenha compreendido ao longo de sua vida.
E o que a história da herança tem com isso?
Paciência... há tempo para tudo debaixo do céu e, de certo, um dia haverá um tempo para o termo dessa herança também, embora não seja história que este narrador poderá relatar, pois embora metais enferrujem e tecidos alimentem traças, os vermes são mais rápidos ao desempenhar as atividades de sua natureza.
O fato é que Giuseppe, Idalina e a negra Nhácia fugiram juntos para Minas, cada um a contribuir um pouco com sua parte nessa sociedade de desvalidos. Giuseppe com sua força e determinação quase de um muar, Idalina com sua dose de silêncio e esperança, e a negra com sua mansuetude e culinária, além de um jeitinho prestimoso de botar calma em tudo, de matar galinhas, cuidar de uma hortinha e espantar cachorro. Ela, pouco mais velha que o casal, tornara-se para os dois uma espécie de mãe. Fugira mais pela menina, que lhe confidenciara a vontade e contra a qual as palavras apaziguadoras de Nhácia nada puderam. Não tendo sucesso em demover Idalina da ação impetuosa, juntara-se a ela no delírio febril da fuga.
Passaram apertado durante um tempo. Idalina mais, pois tivera de costurar para merecer algumas moedas, coisa que jamais faria não fosse a adversidade severa imposta pela escolha. O jovem Giuseppe virou trabalhador de eito e era, do seu jeito tosco, apaixonado pela "angioletta", como chamava Idalina... Viveram em um casebre emprestado por caridade de uma viúva do local. Nhácia criava as galinhas, plantava no fundo da casa, lavava para eles e para fora, e pitava seu cachimbinho feito a faca. As dores dos três os afinizaram e deram, a cada um, laço de cumplicidade familiar que não há notícia haja na Terra ou em outra qualquer parte.
Nas noites claras, sob luz de lamparina, Giuseppe tangia uma violinha, cujas cordas meio rudes como ele, noite ou outra, faziam coro para uma língua estranha à Idalina e à Nhácia. A negra se ria, enquanto “angioletta” cantava também algumas músicas para ninar as crianças. Era uma voz suave que tingia o ar e dava uma leveza à existência, fazia esquecer de tudo ou lembrar de um tempo desconhecido, sem pesares, nem dúvidas nem luta pela vida. Foram, a seu modo, felizes.
Alguns meses depois da fuga e de se estabelecerem no sul mineiro, Idalina enviou carta a Das Dores, consolando a "mãezinha". Alguém leu-a certamente a ela, pois a abnegada mulher era deficiente nas letras. A resposta veio com algum dinheiro. E a esse dinheiro seguiu-se mais, alguns anos depois.
Com a morte de Ribeiro, Das Dores conseguiu partilhar com muito custo a herança deixada pelo velho aos filhos. Metade ficou para Idalina, que já tinha filhos, dois à época, enquanto o restante foi deixado para ser bebido e apostado pelos outros irmãos.
Foi desse modo que Giuseppe fez fortuna, sem desejá-la, sem viver nem matar por ela. Veio-lhe como uma brisa de verão, que lhe refrescou as dívidas e abriu um horizonte mais tranquilo para a família. Nunca se sentiu dono das propriedades que ganhou, nem do dinheiro, nem de nada. Comprou um armazém e, inclusive, em seu orgulho de homem, quis pagá-lo com trabalho à esposa. E pagou.
Todos os bens sempre, entretanto, ficaram em seu nome, mas simplesmente por uma questão de comodidade, não de cobiça.
Décadas passaram, filhos vieram, Idalina foi-se para os campos onde as terras não são loteadas e o dinheiro não tem significado, onde os corações são levados à balança da consciência e os dias podem ser sempre claros. Assim ocorreu seis anos depois com Giuseppe... ocorreu? Não, mas deveria...
Anos depois, o tempo também cobrou Nhácia, e a teria levado numa carruagem conduzida por anjos, caso feito como esse não ofendesse a simplicidade da velha negra que passara dos cem anos de idade. Antes, porém, para que o calvário não lhe fosse curto, longe de sua única família, de pele tão distinta da sua, a infeliz ainda sofreu os apupos de uns poucos ingratos que a caluniaram lançando lodo na memória dela e do casal falecido. A velha negra merecia sim uma carruagem com anjos...
* * *
Giuseppe estava na sala. Não se lembrava de "angioletta", de Nhácia, nem das alegrias que vivera simples e com muito custo. Estava diante da neta que mal conhecera e por quem também mal fora conhecido. Usava uma camisa social com as mangas dobradas à altura dos cotovelos, eram de um azul suave; as calças eram de um marrom bem escuro, mesma cor dos sapatos. Não viera com o chapéu. Via-se-lhe a calvice e os cabelos bem branquinhos nas laterais da cabeça, bem do jeito dos vovôs. Mas não inspirava a serenidade da velhice, nem a sabedoria, nem a paz...
Era um homem atormentado, cuja face, cabeça apoiada sobre as mãos e expressão na voz bem denunciavam. Beatriz, como ocorre nos sonhos absurdos, diante de situação tão insólita, guardava calma estranha, como se a visita do além-mundo fosse algo corriqueiro até.
- Nono Giuseppe? O senhor aqui...
- Não tenho paz... – o pobre velho adiantou o assunto. Falava como se algo lhe doesse fisicamente.
Bia estranhou o fato de entre tantos parentes ser ela a escolhida para a visita do avô, logo ela que pouco o conhecera, que, em verdade, nem tivera com ele a intimidade comum entre netos e avós. Contudo, como veio a saber ao longo da curta conversa, assim ocorreu porque ela não demonstrava interesse pela infeliz herança.
O velho Giuseppe estava enlouquecendo, perturbado, ouvia e sentia todos os tipos das piores emoções. A herança, num enrosco de trinta anos, trocava de tempos em tempos de inventariante e já enterrara inclusive alguns deles. Os irmãos desconfiavam uns dos outros, as intrigas se multiplicavam, e todos, sem perceber, iam morrendo aos poucos enquanto remoíam mágoas, angústias, tergiversações que nada resolviam. Não bastasse a animosidade dos herdeiros diretos, vinham os comentários dos genros, noras, cunhados, vizinhos, das pessoas que na cidadezinha passavam pela antiga casa inventariada, que sem cuidados ia se desfazendo na pintura e no cupim. E o velho sentia tudo no corpo frágil que recebera com a morte. Vinham-lhe os comentários até os ouvidos enquanto o corpo era atacado por pontadas endereçadas principalmente pelos parentes. Era uma filha que reclamava não ter recebido o carinho paterno; uma cunhada que se lembrava do almoço a que ele não fora – “por desdém, é claro... porque era mais rico do que os outros irmãos”-; era um neto que amaldiçoava o avô por não ter beneficiado seu pai, “justamente o mais pobre dos irmãos”; era a vizinhança que lhe enviava setas de ódio constantemente porque a casa estava desvalorizando o bairro – “o que ele podia fazer?” -; era a nora que rezava novenas para que a herança tomasse jeito e, entre uma reza e outra, lembrava com raiva do velho Giuseppe; era um neto que exigia sua parte, com urgência, e fazia planos; era outra nora que fazia contas e questão de ter a cópia do processo em mãos; era uma filha que mandara consultar advogado especialista em São Paulo; era um filho que maldizia insistentemente o velho; era um sobrinho que queria, por curiosidade, elencar os bens da herança e sonhava com o que faria ele se estivesse no lugar de um dos herdeiros... eram todos que se iam afogando em fel e em fantasias apaixonadas e insensatas.
- Tudo minha culpa... – concluiu.
- Mas, nono, o senhor não tem culpa de nada...
Segundo ele, tinha culpa sim. Disse que os filhos eram fruto do que havia ensinado a eles.
Talvez estivesse sendo duro demais consigo, Bia não sabia. Ela não conhecia o Giuseppe, não o conhecera nem moço, nem velho, nem humano. Conheceu o que lhe contaram dele. Porém, não era possível que ele fosse culpável pela atitude de tantas pessoas, porque, se assim o fosse, todos aqueles parentes e agregados não seriam responsáveis por si mesmos. Tentou consolar o nono. Perguntou-lhe se não tinha fé, se não rezava a Deus com confiança... mas Giuseppe estava tão perturbado com tantos pensamentos e desilusão que tudo o que ouvira antes de morrer sobre a “vida vindoura” parecia-lhe uma fábula de mal gosto.
Bia convidou-lhe a fazer uma prece e, confiante no arcanjo Miguel, pediu-lhe a intervenção como anjo protetor familiar. Esperou o anjo fervorosamente em sua sala, ao lado do avô desiludido. Um anjo certamente daria conta da situação. Surgiria voando pela sala, com sua espada, com seu olhar luminoso e salvaria Giuseppe de seu constrangimento moral. Faria o velho nono bendizer o Pai nas alturas. O arcanjo era infalível, era sempre o último recurso dos desesperados, afinal, era um enviado do próprio Deus.
Os olhos cerrados de Beatriz, seu cenho franzido, pareciam lançar a prece bem alto nos céus, rompendo os espaços até a morada do próprio Criador. O anjo viria para restituir todas as coisas... Ah, viria! O bom nono Giuseppe teria a paz que lhe fora negada por 30 longos anos. Deixaria abrir um sorriso suave de alívio profundo. Bendiria ao Senhor! O arcanjo era sem sombra de dúvidas infalível, não era à toa que estava na mais alta hierarquia dos anjos.
Porém, o céu também tem suas ironias, ou melhor, seu senso de humor apurado. Não veio anjo, veio Nhácia, com aquele sorriso que Bia conhecera:
- Então tá aqui, Giuseppe? Di novo issa tristeza, home de Deus? Já não falei pra erguê os pensamento para o Nosso Sinhô? Já não disse que tá tudo já iscrito dibaxo do céu?
A boa Nhácia deixava um perfume no ar com seu jeito forjado na dor e na resignação.
- Vamo, meu bom velho, D. Idalina está sozinha perguntano pelo sinhô. As criança tum bem crescida e vão tê qui respundê pelos própio coração. Pega lá sua violinha, lembra dos tempo duro, mais feliz, de quando as criança vinheram; do teu suô de home honestu; e se lembra de Cristo, Nosso Sinhô... Deus é bom, meu pobre Giuseppo, os home é qui tão tudo loco. – e deu uma risada gostosa.
Giuseppe ficou com os olhos umedecidos ao ver a velha, a amada velha Nhácia, que nunca exigira nada, sempre boa, mansa, de fala baixa, eterna e fiel serva da família, sempre tão injustiçada, mas digna no sofrer, que vivera sem salário, sem filhos, marido ou confidente, que deixara vultosa herança ignorada de humildade a todos os filhos de Giuseppe, chamada por eles de Nhacinha, amada Nhacinha, de quem ninguém quis a receita do feijão – o mais elogiado -, ou do doce de abóbora – que fazia salivar, da canja contra resfriado, da bênção contra espinhela caída, do carinho consolador fácil de encontrar lá na cozinha, na cadeirinha que tinha ao lado do armário das panelas, lugar que foi sempre o cômodo de Nhácia. Era a boa Nhácia que veio buscá-lo, dona de heranças boas, inesgotáveis, que ninguém quis...
Giuseppe levantou-se meneando a cabeça e, enxugando os olhos, foi para junto dela. Foram saindo.
A negra boa e velha voltou um olhar para Beatriz: - E vancê, comu qui tá bunita, minha minina! Continua confiando nus anjo, viu... eles são muito poderoso.
Beatriz emocionou-se com a presença da mulher mais rara que conhecera na infância e na vida. Aquele perfume na sala, aqueles olhos terninhos, a voz tímida, o sorriso, meu Deus...
Assim que os dois deixaram sua sala, como uma menina que um dia fora, curiosa e enxerida, Bia deixou o corpo no sofá e foi até a janela para ver se havia alguma carruagem para a velha Nhácia... Não havia nada além do céu, o céu estrelado da noite, do qual se esquecem os homens.
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