domingo, 27 de novembro de 2016

A pornografia de Voltaire

A pornografia de Voltaire

            Escrever é um suar muito com as palavras, é ofício árduo que se vai aprendendo nas primeiras letras e, na oficina que deve ser toda escola, vai se refinando. Contudo, não resulta de ato maquinal, que por meio de esforços repetitivos se possa dominar, porque o que junta as palavras são três elementos que estão para obra escrita como água, areia e cimento estão para as edificações. Que tome nota quem quiser; eis os três: palavra, pensamento e sensibilidade. A mistura deles se faz pelo propósito e vontade, que geralmente vão surgindo como força viva e insistente nos corações daqueles que amam os livros, os devaneios, mas também as questões profundas da alma e da existência. Em largas braçadas sobre as superfícies das coisas ou em mergulhos arriscados e surpreendentes que permitem as emoções e os pensamentos, surgem textos e mais textos – agricultores de imagens e ideias na jornada existencial humana.
            Porém, o que é a escrita e a leitura para alguns? – e que não se os condene... É passatempo de pessoas que fogem à realidade das questões práticas da vida. Para aqueles que percorrem a vida à parte das linhas dos livros, leitores e escritores são excêntricos, complexos, deslocados socialmente e, às vezes, motivo de preocupação até. “Que que há com esse moleque... sempre lendo, de pouca conversa... Que problema tem essa menina, enfiada no meio desses livros... vai acabar ficando louca...”
            Contudo, quantos são os que vão ao cinema, assistem a novelas e seriados de TV, deleitam-se com filmes e peças, esquecendo-se ou ignorando que tantas histórias só ganharam forma após um muito suor de palavras e esculpir de ideias que exigiram tempo, silêncio e recolhimento para ganhar forma?
            A prudência e o senso de justiça, entretanto nos advertem, fiquemos no 1x1, pois de modo geral também costumamos nos esquecer dos tijolos, vigas, cimento, areia, telhas, canos e fiações quando estamos dentro de nossas casas, abrigados e confortáveis. E essas comparações podem se desdobrar quase ao infinito. O fato é que em meios intelectualizados costuma-se desprestigiar o trabalho não intelectual e vice-versa: 2x2.
            Cíntia Macedo – e guardem bem seu nome – é escritora de futuro promissor. É até agora autora de alguns poemas indecisos e de alguns contos... entre eles um conto magistral. Ela tem 15 anos, mas o conto de que tratamos revela a experiência de uma autora que já aprendeu a refletir sobre a força das palavras, dos silêncios, das sugestões, das entrelinhas, dos conflitos e dos desfechos; ela conhece alguns segredos da arte da narração. Aprendeu de tanto ler livros, ouvir histórias e observar a vida, no que esta tem de mais corriqueira e surpreendente. Um dia sentiu-se pronta para escrever um conto, um conto que desejou público, como uma pequena obra de arte que deve deixar o convívio íntimo do artista para invadir o espaço da fantasia alheia. Trabalhou na historieta, aplicando-lhe os segredos que aprendera a conhecer por si. Foi amadurecendo o enredo, lapidando-lhe nas bordas até acreditá-lo pronto, até acreditá-lo digno. Depois de acabado, precisava, no entanto, de algo que o legitimasse, algo como o julgamento alheio, uma avaliação de alguém para quem ela fosse uma total desconhecida e para quem, ao mesmo tempo, o universo literário fosse lugar-comum. Foi quando lhe chegou ao conhecimento, pelo jornal da cidade, um evento artístico-literário, no qual haveria um concurso de contos.
            Sorriu. Inscreveu-se. Esperou o que era necessário esperar. Sentiu também aquela ansiedade gostosa e que faz tão bem... Classificou-se entre os três primeiros colocados... foi para o evento.
            Não foi só. Com ela foram os pais, uma tia e a irmã. Todos meio orgulhosos e também curiosos. Curiosos porque não sabiam daquele talento de Cíntia, “ela, uma escritora?”.
            Cíntia foi elogiada na entrega da premiação. Destacou-se sua sensibilidade ao escrever, seu repertório... citara o grande Voltaire, “que menina naquela idade tinha maturidade para ler Voltaire e pensar num enredo tão curioso e dramático, ao mesmo tempo cômico?” – tornou-se pública a agradável surpresa dos jurados.
            Houve fotos, abraços, palavras encorajadoras à Cíntia e também parabenizações aos pais, que se alegraram com e pela filha. Ela certamente seria uma futura escritora. “Qual é mesmo o nome do conto, Cíntia?” - perguntavam para dizerem aos avós, aos tios, aos amigos da família.
            “O desafio de Voltaire” – ela respondia paciente, um pouco decepcionada por conta de um justificável porquê.
            Divulgavam-lhe o feito, sem, entretanto, conhecer-lhe de fato a obra.  Ninguém do universo doméstico havia lido verdadeiramente o conto e, pior, perguntou-lhe sobre o que ele realmente tratava. A quem julgar?
            Se era dela o gosto pela leitura, não o era o pelo futebol, como o era do pai; da ginástica, como o era da irmã; ou da culinária, como o era da mãe. Mas era realmente desagradável que o título do conto ganhasse mais importância do que a história em si, pois – sentia ela – aos verdadeiros autores não interessam de fato os títulos, mas ocupar a mente das pessoas com enredos e surpresas. Títulos são marcas para a História e para histórias e têm importância secundária quando o assunto é Literatura.
            Cíntia era humana e, como não poderia deixar de ser, sentia certa mágoa, aquela que chega com as marcas da incompreensão. Sentia-se solitária no talento, embora não de todo desmotivada na escrita.
            Seu conto premiado era resultado da interferência de sua fantasia em fatos biográficos do grande filósofo conhecido como Voltaire. Ele, que dedicara toda a vida a legitimar na corte francesa a figura do homem de letras, o homem esclarecido, o filósofo, lutando contra a obscuridade a que a religião de então lançava os homens e, sobretudo, os reis. Perseguido, fora proibido de frequentar Paris, fazendo peripécias para publicar suas obras, que em grande parte afrontavam a moral estabelecida. Escandalizava a dogmática hipócrita que misturava religião e Estado. Por esse motivo tornara-se inimigo de reis, sendo temido pela Igreja e amado pelos livres pensadores. A autora escolhera um episódio entre tantos da vida do iluminista, o momento em que o jovem Voltaire desentendera-se com o pai por desejar dedicar-se às artes literárias, negando-se a esposar uma carreira burguesa segura.
            Cíntia releu o conto. Lamentou sua pouca repercussão. Só ela e poucos jurados conheciam-lhe o teor. Foi então que lhe ocorreu uma palavra, uma metáfora para o que fora Voltaire em seu tempo. Voltaire fora “pornográfico”. O vocábulo arrancou-lhe um sorriso duradouro dos lábios. “Isso: pornográfico – que palavra terrivelmente simbólica”. Mudou-se o nome do conto. Daquele momento em diante sua história passou a ser chamada de “A pornografia de Voltaire”.
            Como sexo e pornografia vendem mais do que ideias e enredos, Cíntia decidiu lutar com a arma do engodo. O novo nome certamente a ajudaria a dar maior projeção ao conto, nem que fosse entre os familiares. De qualquer modo, antes pornografia no nome do que no conteúdo, melhor o sexo a serviço da inteligência do que o contrário.
Alguns meses se passaram, assim como alguns novos contos. Aquele que, entretanto, nos interessa já havia sido rebatizado e sofrido uns poucos retoques, sendo, contudo, em essência, ainda o mesmo. O ano chegava ao fim e, como tradicionalmente ocorria, a família de Cíntia reuniu-se na chácara do avô.
Mais uma vez a história surgiu: o bendito prêmio de Cíntia!
- Qual é mesmo o nome do conto, filha?
- Mudei o nome dele, pai.
- Então, mas qual é o nome...
- “A pornografia de Voltaire”.
O pai ficou sem jeito, a mãe também. Reinou um silêncio constrangedor, tios trocaram olhares, a avó não conseguiu esconder a surpresa. Como narrou certa vez a irmã de Cíntia sobre o episódio, “pairou um climão”.
- Como assim, filha? Explica melhor essa história. – pediu a mãe, meio sem graça, com um sorriso mal ajambrado na boca.
Um primo olhou malicioso para Cíntia...
- Mãe, história não se explica, ou se lê ou não se lê. Contada assim não tem graça.
- Isso que dá ficar enfiada no meio dos livros... – resmungou contrariado o avô.
- Mônica, você precisa prestar mais atenção à sua filha – repreendeu baixinho o pai -, é melhor dar uma lida nesse conto.
- Mas como a Verinha cresceu! – a afortunada tia Leda mudava o rumo da prosa.
E Cíntia sentiu que lá do alto, bem lá do mundo das ideias, o jovem Voltaire lhe enviava uma piscadela de olho. Ele que aprendera a arte de fazer as palavras dizerem o contrário de si mesmas a fim de deixarem o mundo de suas irmãs para conquistarem, como bárbaras, as mentes dos homens.
Em um espaço de quinze dias, Cíntia ganhou leitores entre os seus, coisa que não tivera em meses. A primeira foi a mãe, depois a irmã, então o pai e os tios. Quanto mais estes guardavam segredo sobre a verdadeira pornografia de Voltaire, mais o conto se espalhava. Primos, avós, amigos...
Porque o conto era realmente bom, mesmo sem encontrar a pornografia, os leitores continuavam até o fim. Era um conto também sobre a incompreensão entre pais e filhos, conflitos entre pontos de vista e discordância entre gerações. Era uma exaltação à inteligência, à diplomacia.
Bendito escândalo, bendita e coerente ideia, bendita pornografia!


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