A pornografia de Voltaire
Escrever
é um suar muito com as palavras, é ofício árduo que se vai aprendendo nas
primeiras letras e, na oficina que deve ser toda escola, vai se refinando.
Contudo, não resulta de ato maquinal, que por meio de esforços repetitivos se
possa dominar, porque o que junta as palavras são três elementos que estão para
obra escrita como água, areia e cimento estão para as edificações. Que tome
nota quem quiser; eis os três: palavra, pensamento e sensibilidade. A mistura
deles se faz pelo propósito e vontade, que geralmente vão surgindo como força
viva e insistente nos corações daqueles que amam os livros, os devaneios, mas
também as questões profundas da alma e da existência. Em largas braçadas sobre
as superfícies das coisas ou em mergulhos arriscados e surpreendentes que
permitem as emoções e os pensamentos, surgem textos e mais textos –
agricultores de imagens e ideias na jornada existencial humana.
Porém,
o que é a escrita e a leitura para alguns? – e que não se os condene... É passatempo
de pessoas que fogem à realidade das questões práticas da vida. Para aqueles
que percorrem a vida à parte das linhas dos livros, leitores e escritores são
excêntricos, complexos, deslocados socialmente e, às vezes, motivo de
preocupação até. “Que que há com esse moleque... sempre lendo, de pouca
conversa... Que problema tem essa menina, enfiada no meio desses livros... vai
acabar ficando louca...”
Contudo,
quantos são os que vão ao cinema, assistem a novelas e seriados de TV,
deleitam-se com filmes e peças, esquecendo-se ou ignorando que tantas histórias
só ganharam forma após um muito suor de palavras e esculpir de ideias que
exigiram tempo, silêncio e recolhimento para ganhar forma?
A
prudência e o senso de justiça, entretanto nos advertem, fiquemos no 1x1, pois
de modo geral também costumamos nos esquecer dos tijolos, vigas, cimento,
areia, telhas, canos e fiações quando estamos dentro de nossas casas, abrigados
e confortáveis. E essas comparações podem se desdobrar quase ao infinito. O
fato é que em meios intelectualizados costuma-se desprestigiar o trabalho não
intelectual e vice-versa: 2x2.
Cíntia
Macedo – e guardem bem seu nome – é escritora de futuro promissor. É até agora
autora de alguns poemas indecisos e de alguns contos... entre eles um conto
magistral. Ela tem 15 anos, mas o conto de que tratamos revela a experiência de
uma autora que já aprendeu a refletir sobre a força das palavras, dos
silêncios, das sugestões, das entrelinhas, dos conflitos e dos desfechos; ela
conhece alguns segredos da arte da narração. Aprendeu de tanto ler livros,
ouvir histórias e observar a vida, no que esta tem de mais corriqueira e
surpreendente. Um dia sentiu-se pronta para escrever um conto, um conto que
desejou público, como uma pequena obra de arte que deve deixar o convívio
íntimo do artista para invadir o espaço da fantasia alheia. Trabalhou na
historieta, aplicando-lhe os segredos que aprendera a conhecer por si. Foi
amadurecendo o enredo, lapidando-lhe nas bordas até acreditá-lo pronto, até
acreditá-lo digno. Depois de acabado, precisava, no entanto, de algo que o
legitimasse, algo como o julgamento alheio, uma avaliação de alguém para quem
ela fosse uma total desconhecida e para quem, ao mesmo tempo, o universo
literário fosse lugar-comum. Foi quando lhe chegou ao conhecimento, pelo jornal
da cidade, um evento artístico-literário, no qual haveria um concurso de
contos.
Sorriu.
Inscreveu-se. Esperou o que era necessário esperar. Sentiu também aquela
ansiedade gostosa e que faz tão bem... Classificou-se entre os três primeiros
colocados... foi para o evento.
Não
foi só. Com ela foram os pais, uma tia e a irmã. Todos meio orgulhosos e também
curiosos. Curiosos porque não sabiam daquele talento de Cíntia, “ela, uma
escritora?”.
Cíntia
foi elogiada na entrega da premiação. Destacou-se sua sensibilidade ao
escrever, seu repertório... citara o grande Voltaire, “que menina naquela idade
tinha maturidade para ler Voltaire e pensar num enredo tão curioso e dramático,
ao mesmo tempo cômico?” – tornou-se pública a agradável surpresa dos jurados.
Houve
fotos, abraços, palavras encorajadoras à Cíntia e também parabenizações aos
pais, que se alegraram com e pela filha. Ela certamente seria uma futura
escritora. “Qual é mesmo o nome do conto, Cíntia?” - perguntavam para dizerem
aos avós, aos tios, aos amigos da família.
“O
desafio de Voltaire” – ela respondia paciente, um pouco decepcionada por conta
de um justificável porquê.
Divulgavam-lhe
o feito, sem, entretanto, conhecer-lhe de fato a obra. Ninguém do universo
doméstico havia lido verdadeiramente o conto e, pior, perguntou-lhe sobre o que
ele realmente tratava. A quem julgar?
Se
era dela o gosto pela leitura, não o era o pelo futebol, como o era do pai; da
ginástica, como o era da irmã; ou da culinária, como o era da mãe. Mas era
realmente desagradável que o título do conto ganhasse mais importância do que a
história em si, pois – sentia ela – aos verdadeiros autores não interessam de
fato os títulos, mas ocupar a mente das pessoas com enredos e surpresas. Títulos
são marcas para a História e para histórias e têm importância secundária quando
o assunto é Literatura.
Cíntia
era humana e, como não poderia deixar de ser, sentia certa mágoa, aquela que
chega com as marcas da incompreensão. Sentia-se solitária no talento, embora
não de todo desmotivada na escrita.
Seu
conto premiado era resultado da interferência de sua fantasia em fatos
biográficos do grande filósofo conhecido como Voltaire. Ele, que dedicara toda
a vida a legitimar na corte francesa a figura do homem de letras, o homem
esclarecido, o filósofo, lutando contra a obscuridade a que a religião de então
lançava os homens e, sobretudo, os reis. Perseguido, fora proibido de
frequentar Paris, fazendo peripécias para publicar suas obras, que em grande
parte afrontavam a moral estabelecida. Escandalizava a dogmática hipócrita que
misturava religião e Estado. Por esse motivo tornara-se inimigo de reis, sendo
temido pela Igreja e amado pelos livres pensadores. A autora escolhera um
episódio entre tantos da vida do iluminista, o momento em que o jovem Voltaire
desentendera-se com o pai por desejar dedicar-se às artes literárias,
negando-se a esposar uma carreira burguesa segura.
Cíntia
releu o conto. Lamentou sua pouca repercussão. Só ela e poucos jurados conheciam-lhe
o teor. Foi então que lhe ocorreu uma palavra, uma metáfora para o que fora
Voltaire em seu tempo. Voltaire fora “pornográfico”. O vocábulo arrancou-lhe um
sorriso duradouro dos lábios. “Isso: pornográfico – que palavra terrivelmente
simbólica”. Mudou-se o nome do conto. Daquele momento em diante sua história
passou a ser chamada de “A pornografia de Voltaire”.
Como
sexo e pornografia vendem mais do que ideias e enredos, Cíntia decidiu lutar
com a arma do engodo. O novo nome certamente a ajudaria a dar maior projeção ao
conto, nem que fosse entre os familiares. De qualquer modo, antes pornografia
no nome do que no conteúdo, melhor o sexo a serviço da inteligência do que o
contrário.
Alguns meses se passaram, assim
como alguns novos contos. Aquele que, entretanto, nos interessa já havia sido
rebatizado e sofrido uns poucos retoques, sendo, contudo, em essência, ainda o
mesmo. O ano chegava ao fim e, como tradicionalmente ocorria, a família de
Cíntia reuniu-se na chácara do avô.
Mais uma vez a história surgiu: o
bendito prêmio de Cíntia!
- Qual é mesmo o nome do conto,
filha?
- Mudei o nome dele, pai.
- Então, mas qual é o nome...
- “A pornografia de Voltaire”.
O pai ficou sem jeito, a mãe
também. Reinou um silêncio constrangedor, tios trocaram olhares, a avó não
conseguiu esconder a surpresa. Como narrou certa vez a irmã de Cíntia sobre o
episódio, “pairou um climão”.
- Como assim, filha? Explica
melhor essa história. – pediu a mãe, meio sem graça, com um sorriso mal
ajambrado na boca.
Um primo olhou malicioso para
Cíntia...
- Mãe, história não se explica, ou
se lê ou não se lê. Contada assim não tem graça.
- Isso que dá ficar enfiada no
meio dos livros... – resmungou contrariado o avô.
- Mônica, você precisa prestar
mais atenção à sua filha – repreendeu baixinho o pai -, é melhor dar uma lida
nesse conto.
- Mas como a Verinha cresceu! – a
afortunada tia Leda mudava o rumo da prosa.
E Cíntia sentiu que lá do alto,
bem lá do mundo das ideias, o jovem Voltaire lhe enviava uma piscadela de olho.
Ele que aprendera a arte de fazer as palavras dizerem o contrário de si mesmas
a fim de deixarem o mundo de suas irmãs para conquistarem, como bárbaras, as
mentes dos homens.
Em um espaço de quinze dias,
Cíntia ganhou leitores entre os seus, coisa que não tivera em meses. A primeira
foi a mãe, depois a irmã, então o pai e os tios. Quanto mais estes guardavam
segredo sobre a verdadeira pornografia de Voltaire, mais o conto se espalhava.
Primos, avós, amigos...
Porque o conto era realmente bom,
mesmo sem encontrar a pornografia, os leitores continuavam até o fim. Era um
conto também sobre a incompreensão entre pais e filhos, conflitos entre pontos
de vista e discordância entre gerações. Era uma exaltação à inteligência, à
diplomacia.
Bendito escândalo, bendita e
coerente ideia, bendita pornografia!
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