domingo, 27 de novembro de 2016

No compasso da vida

No compasso da vida

Contava 36 anos. Com o passar de algumas semanas, germinara-me entre os pensamentos aquele que se mostrou em pouco tempo um incômodo mal psíquico, embora inofensivo: uma ideia fixa e perturbadora, ideia sem tréguas a que frequentemente passaram a convergir certas elocubrações - todos os pensamentos um a um pareciam ser dragados por um grande buraco. Para alguns viciados, seria o jogo; aos avaros, a visita mental ao saldo bancário; mas, a mim, a ideia inexorável e vaidosa – porque desejava todas as atenções – era o conhecimento da simbologia maçônica.

Por que maçonaria e não outra coisa qualquer?

Àquele tempo, se me perguntassem se gostaria de tornar-me maçom, responderia com convicção humilde que não. Contudo, a compreensão dos ritos e símbolos dessa “ordem discreta”, como afirmam alguns, parecia-me de todo irresistível, a tal ponto de me deixar contrariado com as próprias tergiversações.

Nessa mesma época, para alívio meu, frequentava um terapeuta, um psicólogo que, seguindo a chamada linha da Psicologia Transpessoal, não oferecia resistência a temas como reencarnação, projeção de consciência e experiências extra-sensoriais. Tais assuntos, de outro modo, seriam enquadrados no diagnóstico popular como misticismo, excentricidade ou loucura. No clínico, seriam utilizadas palavras mais interessantes, talvez esquizofrenia ou, no mínimo, uma combinação de nomes de transtornos louváveis. Entre “ser e não ser”, às vezes é melhor não ser. De qualquer modo, como entendíamos reencarnação como um fenômeno possível – embora cada um à própria maneira – éramos ambos completamente normais para budistas, hinduístas e espíritas – melhor ser do que não ser.

Portanto, companheiro leitor ou leitora, se você chegou até este parágrafo, saiba que daqui em diante atravessará por sua conta um umbral, uma entrada, cujas paredes estreitas podem ser chamadas fantasia ou realidade. Escolha o nome que lhe aprouver, e sigamos caso lhe agradem relatos insólitos. No entanto, desista do conto, caso a vida lhe pareça algo infinitamente mais simples. Não é do meu feitio importar-me com as crenças alheias nem tampouco fazer proselitismo das minhas próprias idiossincrasias. O que sei é que a narrativa posterior não é outro relato que não o dos fatos que presenciei em minha tela mental e senti como verdade em todo o meu ser.   

Vejo que decidiu prosseguir. Menos mal, agradeço com sinceridade – é sempre bom deparar-se com ouvidos atentos ou, neste caso, leitura acolhedora. Espero que seja recompensado(a) por sua disposição e empenho.

Após minhas queixas sobre a implacável fixação, Heitor cofiou a barba e ponderou: “Marcos, somos ambos reencarnacionistas. Diante de tudo que temos conversado ao longo de nossas sessões, não vejo por que não poderíamos investigar essa perturbação por meio de uma regressão de consciência. O que acha?”

Conforme acredito, esforçar-se para recordar existências pregressas não é algo aconselhável, exceto quando há objetivos relevantes. Porém, como pesar a real relevância do motivo em questão? Como conter a curiosidade que certamente ronda quem crê de alguma forma na reencarnação?

Consenti.

Heitor então se aproximou, ajeitou confortavelmente a cadeira de modo a recliná-la quase como um divã. Perguntou se poderíamos começar.

Fiquei um pouco apreensivo: reviver uma experiência pregressa não me traria impressões mais vivas e até inconciliáveis com meu estado de consciência atual? Além do mais, será que não reviveria no corpo de agora a dor física de outros tempos?

“Coragem” – pensei.

E foi assim que, sob a orientação sugestiva de Heitor, volitei ao passado pouco a pouco, identificando-me como expectador de mim mesmo. Vi-me criança de uns 7 anos diante de uma casa sede de fazenda, no interior de algum território no sudeste da colônia inglesa estabelecida no norte da América. Despedia-me de meu pai, que mais do que administrador de propriedade, assemelhava-se a homem de negócios preocupado com as finanças na metrópole. Partia à Inglaterra, lugar ao qual certamente se sentia muito mais ligado. A fazenda a ele não era um lar, eu também não lhe parecia algo de seu, além, é claro, de uma propriedade a quem o amor restringia-se à provisão material e intelectual. Nisso certamente ele não falharia. Nunca mais nos veríamos. Sua idade já era relativamente avançada e não tinha disposição para voltar à tediosa fazenda.

Pouco afetuoso, não concedeu abraço ou palavras carinhosas ao despedir-se, deixando-me ao cuidado de um tutor muito letrado. Do mais, estava cercado por uns poucos escravos muito fiéis que, ao que parece, tinham uma vida confortável para época, sem ressentimentos para com seu senhor. Pouco se lhes exigia; nada comparado ao que se fazia com os de outras fazendas. Eram mais livres naquela propriedade do que em outro lugar qualquer da colônia.

Mãe?

Não sinto que houvesse conhecido uma.

O homem enfim partira com suas roupas sóbrias, o seu jeito sóbrio na carruagem com sóbrios cavalos. Eu, de minha parte estava só, não muito diferente do que me sentira até ali. Estava só como a propriedade, embora sentisse sobre o ombro a mão de uma escrava jovem, cuja compaixão a respeito de minha condição era algo quase tangível.

Os anos seguintes foram calmos. Meu tutor parecia-me um jovem sensível e extremamente culto – algo que talvez eu gostaria de me tornar. Ele me iniciara na língua francesa, a qual, com a prática, comecei a ler com certa desenvoltura, não me faltando a capacidade de me expressar por escrito também. Para tanto, me parecia mais fácil o francês do que o inglês.

Estudávamos textos polêmicos para a época, eram de Voltaire. Em pleno século XVIII, tomávamos contato com escritos que revolucionavam nosso tempo. Nossa religião naquela longínqua fazenda quase de todo improdutiva era o livre pensamento. Não aceitávamos a imposição da fé, porque tínhamos a crença iluminista como um archote a conduzir não somente os nossos ideais, mas o futuro.

Confesso, meu tutor fizera de mim um ingênuo idealista. Isso me custaria caro pouco tempo mais tarde.

Em minha fazenda, às vezes uma visita: uma tia e uma prima que conversavam frivolidades sobre os costumes da metrópole. Se não podia isolar-me quanto à presença, o fazia em pensamento, deixando a meu tutor os pequenos mimos de atenção e consideração que, acredito, serviam-lhe de distração e de frugal entretenimento. Iam-se, ficava eu, os livros, as conversas com o tutor, a fazenda e os escravos. Meu pai mandava o dinheiro a ser administrado pelo tutor.

A fazenda não dava lucros, ao ausente pai era antes um refúgio ou um capricho

Mas continuemos.

Quando o paraíso se torna entediante, ou procuramos nosso fruto proibido ou o destino empurra-o nossa goela abaixo. A expulsão é certa.

Meu tutor, conforme a realidade turbulenta que se aproximava, passou a me preparar para uma transição. Creio, no entanto, que ele pensava se tratar de um problema do qual a política daria conta, quando, na verdade, o que estava prestes a ocorrer de fato era uma guerra.

Além de me ensinar com os escritos de Voltaire, que eu copiava em minhas lições, ele passou a me transmitir o conhecimento sobre alguns símbolos e palavras, que, segundo ele, me ajudariam a reconhecer outros senhores de valores liberais, adeptos de um pensamento livre e de uma nova ordem política para a colônia. Era possível - de acordo com suas palavras - que alguns deles necessitassem abrigar-se em minha propriedade ou que tivesse de recebê-los para tecer estratégias a fim de viabilizar a concretização do que tanto lera nos textos iluministas. O inverso também poderia ocorrer, mas era menos provável que eu tivesse de deixar minhas poucas terras.

Que doce aventura! Finalmente abandonaria a teoria para enveredar em uma grande causa...

Passei, portanto, a esforçar-me para decorar uns poucos símbolos e palavras, as quais deveria procurar encaixar mesmo nas conversações mais superficiais. Assim, reconheceria e seria reconhecido entre companheiros de ideais, embora me faltasse, como me alertara o tutor, conhecimento mais profundo sobre o que realmente era aquela fraternidade de irmãos construtores de um novo e promissor futuro da nação. Confesso que, como um jovem de uns 17 anos, a ideia de aventura era mais aprazível do que o sucesso dos intentos liberais.

Meu tutor então me presenteara com um anel ornado com um símbolo maçônico. O objeto me facilitaria a encontrar as relações a que estava destinado e seria um amuleto para me fazer lembrar do grande ideal.

É nesse ponto que minha regressão deu um salto no tempo, talvez alguns meses ou um ou dois anos no máximo.

Vi-me então em situação jamais imaginada. Estava em um front de batalha. Sujo e sem o costume da rotina rude de um soldado, aquela situação era terrivelmente penosa para mim. Meu comandante certamente nunca ouvira falar de Voltaire nem me consta que fosse realmente alfabetizado. Os planos feitos com meu tutor não se concretizaram e dava-me conta que uma nova pátria não se construiria somente com tijolos de ideais; ela, na verdade, parecia era exigir muito sangue.

Tive um pequeno acidente com meu fuzil. Não sei ao certo do que se tratou, mas perdi dois bens: um dedo anular e o anel com o qual havia sido presenteado pelo tutor. Certamente a perda do dedo me foi mais dolorosa. O anel se foi, assim como se foram todas as minhas ilusões do passado.

Sentia-me traído pelos ideais acalentados com tanta esperança e fervor pouco tempo antes. As letras, por melhor que fossem as ideias que vestissem, não faziam frente às forças mais poderosas do mundo: a solicitude pela sobrevivência e o medo do desamparo e da morte.

A colônia fora vitoriosa, surgiria o novo país, porém eu voltava eternamente vencido à propriedade de meu pai.

Meu papel na batalha fora curto, mas suficientemente marcante. Tornei-me amargo. A bebida substituiu as leituras; lamentar a própria existência substituiu às grandes aspirações; o sexo com uma das escravas tornou-se o remédio para o tédio. Assim me transformei em um jovem abjeto de uns vinte e poucos anos.

Contraí certa doença venérea que combinada ao alcoolismo me fazia às vezes enlouquecer.

Foi quando, junto de outros escravos – e a bem da verdade, na fazenda eram livres, pois faziam o que bem entendiam – comecei a participar de rituais de magia na tentativa de curar minha enfermidade. Tais práticas pareciam mais desvarios, em que o álcool e o sexo entorpeciam a mente e o corpo, prometendo a fuga de todas as dores.

Embrutecido, perdi a noção do tempo.

Uma moça, no entanto, apareceu na fazenda. Tinha sido moradora e senhorinha de propriedade vizinha. Jovem e bela, a adversidade da guerra lhe fora mais cruel. Soldados da própria colônia roubaram-lhe o mais precioso pudor. Para piorar, engravidara. Completamente desamparada e só, lembrara-se de pedir auxílio em minha casa.

Minha autocomiseração não me permitiu compaixão maior, a qual ela sem dúvida merecia. Contudo, para honrá-la, propus casar-me com ela e adotar a criança que nasceria.

Foi um bem que fiz, não porque fosse bom. De fato, era-me indiferente ao ato, mas parecia-me algo certo a fazer.

A presença da mulher um pouco mais jovem do que eu inspirou-me certo pudor. Deixei de lado os rituais e a amante escrava, mantendo meu namoro somente com as garrafas de conteúdo etílico. O álcool corroía-me a lucidez; a doença, o corpo. Vivi isolado por uns poucos anos, ainda que na companhia de minha esposa e de minha filha adotiva, embora não as tratasse como tais. A menininha era loira, bonita e implorava-me, com a presença desconcertante, o carinho paternal. Nada tinha a dar a ela.

Foi quando a morte me chegou. Talvez contasse uns 28 anos.

É a partir de agora que essa lembrança, antes de todas as lembranças da atual existência, fica mais interessante: vi-me ao lado de meu corpo morto, em cova cavada em minha ex-propriedade. Estava ligado a ele pela doença genital e ainda sentia as dores e comichões de outrora. Era um quadro aterrador de ver e de vivenciar.

O espanto jogou-me para fora de mim, para fora de minha autopiedade e deixou-me lúcido para a presença de um benfeitor que se aproximava com sua condição etérea de quem conhecia melhor aquele novo mundo insólito. Ali estava ele, meu jovem tutor, acolhendo-me como espírito que já se tornara.

Embora fosse também jovem – não teria vivido mais do que 40 anos -, era de uma lucidez invejável naquelas condições propostas pela realidade da morte. Aproximou-se de mim gentil como sempre e revelou-me, de alguma forma, em minha tela mental, qual deveria ter sido meu destino. 

Era o meu tutor, amado tutor, novamente a educar minhas energias psíquicas e a conduzir-me à luz do entendimento. Quanto eu recebera, pelas letras e filosofia, do tesouro imaterial do espírito... Fora nos repertórios políticos e filosóficos compartilhados no seio da maçonaria de então que eu bebera a mais pura essência divina, o deísmo de Voltaire, sem o dogmatismo religioso - cegueira da humanidade. 

Recebera simbolicamente a régua e o compasso, para conduzir meus passos com firmeza e convicção quando tudo me viesse a faltar. Exclamei arrependido: “Essa doutrina de luz... Essa doutrina de luz...” – enquanto desabei em pranto.

Então vi o que ocorreria se, em vez da revolta após a guerra, resignado, eu voltasse à fazenda. Lá eu chegaria, reencontraria alguns poucos escravos de outrora que se uniriam a outros perdidos do caminho, cujos donos estivessem mortos. Refletindo sobre os textos que pregavam a igualdade, fraternidade, liberdade e justiça, naquela propriedade fundaria eu uma república simbólica, alfabetizaria quem quisesse ser alfabetizado e compartilharia os ideais liberais com aqueles que escolhessem ficar. Seria uma fazenda escola, um oásis de esperança onde eu envelheceria cercado de ternura e alegria. Era um sonho possível em um lugar esquecido daqueles.

Entretanto, falhei em minha tarefa pessoal, aquela que se realiza em função do outro para atender às próprias demandas íntimas. Falhara com os outros e comigo mesmo. Os escravos estavam livres na propriedade, mas embrutecidos. Minha filha adotiva fora marcada pelo meu desinteresse e aparente desprezo. A mãe dela estava condenada a mais absoluta solidão.

“Agora você é um professor” – lembrou-me o tutor.

Ele estava comigo na sala de Heitor, sinto que tivera papel ativo na condução da regressão.

Despertei do transe psíquico.

Escrevendo 3 anos após todo esse evento, posso afirmar que depois dessa memória pregressa a fixação passou por completo.

Analisá-la como um sonho é possível, também o é como uma vestimenta simbólica para as demandas psíquicas atuais. No entanto, algumas informações da época totalmente desconhecidas – e pesquisadas a posteriori -, como vestuário, mobiliário e movimentações políticas na colônia inglesa do norte da América, são uma incógnita cuja única explicação encontro na teoria – para mim, verdade – da reencarnação.

Nada acabou na cova de outrora, nada está prestes a acabar. Tudo ruma à perfeição.





               
                 
                  

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