No compasso da vida
Contava 36 anos. Com o passar de algumas semanas,
germinara-me entre os pensamentos aquele que se mostrou em pouco tempo um
incômodo mal psíquico, embora inofensivo: uma ideia fixa e perturbadora, ideia
sem tréguas a que frequentemente passaram a convergir certas elocubrações -
todos os pensamentos um a um pareciam ser dragados por um grande buraco. Para
alguns viciados, seria o jogo; aos avaros, a visita mental ao saldo bancário;
mas, a mim, a ideia inexorável e vaidosa – porque desejava todas as atenções –
era o conhecimento da simbologia maçônica.
Por que maçonaria e não outra coisa qualquer?
Àquele tempo, se me perguntassem se
gostaria de tornar-me maçom, responderia com convicção humilde que não. Contudo,
a compreensão dos ritos e símbolos dessa “ordem discreta”, como afirmam alguns,
parecia-me de todo irresistível, a tal ponto de me deixar contrariado com as
próprias tergiversações.
Nessa mesma época, para alívio meu, frequentava um
terapeuta, um psicólogo que, seguindo a chamada linha da Psicologia
Transpessoal, não oferecia resistência a temas como reencarnação, projeção de
consciência e experiências extra-sensoriais. Tais assuntos, de outro modo,
seriam enquadrados no diagnóstico popular como misticismo, excentricidade ou
loucura. No clínico, seriam utilizadas palavras mais interessantes, talvez esquizofrenia
ou, no mínimo, uma combinação de nomes de transtornos louváveis. Entre “ser e
não ser”, às vezes é melhor não ser. De qualquer modo, como entendíamos
reencarnação como um fenômeno possível – embora cada um à própria maneira –
éramos ambos completamente normais para budistas, hinduístas e espíritas –
melhor ser do que não ser.
Portanto, companheiro leitor ou leitora, se você chegou até
este parágrafo, saiba que daqui em diante atravessará por sua conta um umbral,
uma entrada, cujas paredes estreitas podem ser chamadas fantasia ou realidade.
Escolha o nome que lhe aprouver, e sigamos caso lhe agradem relatos insólitos. No
entanto, desista do conto, caso a vida lhe pareça algo infinitamente mais
simples. Não é do meu feitio importar-me com as crenças alheias nem tampouco
fazer proselitismo das minhas próprias idiossincrasias. O que sei é que a
narrativa posterior não é outro relato que não o dos fatos que presenciei em
minha tela mental e senti como verdade em todo o meu ser.
Vejo que decidiu prosseguir. Menos mal, agradeço com
sinceridade – é sempre bom deparar-se com ouvidos atentos ou, neste caso,
leitura acolhedora. Espero que seja recompensado(a) por sua disposição e
empenho.
Após minhas queixas sobre a implacável fixação, Heitor
cofiou a barba e ponderou: “Marcos, somos ambos reencarnacionistas. Diante de
tudo que temos conversado ao longo de nossas sessões, não vejo por que não
poderíamos investigar essa perturbação por meio de uma regressão de
consciência. O que acha?”
Conforme acredito, esforçar-se para recordar existências
pregressas não é algo aconselhável, exceto quando há objetivos relevantes.
Porém, como pesar a real relevância do motivo em questão? Como conter a
curiosidade que certamente ronda quem crê de alguma forma na reencarnação?
Consenti.
Heitor então se aproximou, ajeitou confortavelmente a
cadeira de modo a recliná-la quase como um divã. Perguntou se poderíamos
começar.
Fiquei um pouco apreensivo: reviver uma experiência
pregressa não me traria impressões mais vivas e até inconciliáveis com meu
estado de consciência atual? Além do mais, será que não reviveria no corpo de
agora a dor física de outros tempos?
“Coragem” – pensei.
E foi assim que, sob
a orientação sugestiva de Heitor, volitei ao passado pouco a pouco,
identificando-me como expectador de mim mesmo. Vi-me criança de uns 7 anos
diante de uma casa sede de fazenda, no interior de algum território no sudeste
da colônia inglesa estabelecida no norte da América. Despedia-me de meu pai,
que mais do que administrador de propriedade, assemelhava-se a homem de
negócios preocupado com as finanças na metrópole. Partia à Inglaterra, lugar ao
qual certamente se sentia muito mais ligado. A fazenda a ele não era um lar, eu
também não lhe parecia algo de seu, além, é claro, de uma propriedade a quem o
amor restringia-se à provisão material e intelectual. Nisso certamente ele não
falharia. Nunca mais nos veríamos. Sua idade já era relativamente avançada e
não tinha disposição para voltar à tediosa fazenda.
Pouco afetuoso, não concedeu abraço ou palavras carinhosas
ao despedir-se, deixando-me ao cuidado de um tutor muito letrado. Do mais,
estava cercado por uns poucos escravos muito fiéis que, ao que parece, tinham
uma vida confortável para época, sem ressentimentos para com seu senhor. Pouco
se lhes exigia; nada comparado ao que se fazia com os de outras fazendas. Eram
mais livres naquela propriedade do que em outro lugar qualquer da colônia.
Mãe?
Não
sinto que houvesse conhecido uma.
O homem enfim partira com suas roupas sóbrias, o seu jeito sóbrio na carruagem
com sóbrios cavalos. Eu, de minha parte estava só, não muito diferente do que
me sentira até ali. Estava só como a propriedade, embora sentisse sobre o ombro
a mão de uma escrava jovem, cuja compaixão a respeito de minha condição era
algo quase tangível.
Os
anos seguintes foram calmos. Meu tutor parecia-me um jovem sensível e
extremamente culto – algo que talvez eu gostaria de me tornar. Ele me iniciara
na língua francesa, a qual, com a prática, comecei a ler com certa
desenvoltura, não me faltando a capacidade de me expressar por escrito também.
Para tanto, me parecia mais fácil o francês do que o inglês.
Estudávamos
textos polêmicos para a época, eram de Voltaire. Em pleno século XVIII,
tomávamos contato com escritos que revolucionavam nosso tempo. Nossa religião
naquela longínqua fazenda quase de todo improdutiva era o livre pensamento. Não
aceitávamos a imposição da fé, porque tínhamos a crença iluminista como um
archote a conduzir não somente os nossos ideais, mas o futuro.
Confesso,
meu tutor fizera de mim um ingênuo idealista. Isso me custaria caro pouco tempo
mais tarde.
Em
minha fazenda, às vezes uma visita: uma tia e uma prima que conversavam
frivolidades sobre os costumes da metrópole. Se não podia isolar-me quanto à
presença, o fazia em pensamento, deixando a meu tutor os pequenos mimos de
atenção e consideração que, acredito, serviam-lhe de distração e de frugal
entretenimento. Iam-se, ficava eu, os livros, as conversas com o tutor, a
fazenda e os escravos. Meu pai mandava o dinheiro a ser administrado pelo
tutor.
A fazenda não dava lucros, ao
ausente pai era antes um refúgio ou um capricho
Mas continuemos.
Quando
o paraíso se torna entediante, ou procuramos nosso fruto proibido ou o destino
empurra-o nossa goela abaixo. A expulsão é certa.
Meu
tutor, conforme a realidade turbulenta que se aproximava, passou a me preparar
para uma transição. Creio, no entanto, que ele pensava se tratar de um problema
do qual a política daria conta, quando, na verdade, o que estava prestes a
ocorrer de fato era uma guerra.
Além
de me ensinar com os escritos de Voltaire, que eu copiava em minhas lições, ele
passou a me transmitir o conhecimento sobre alguns símbolos e palavras, que,
segundo ele, me ajudariam a reconhecer outros senhores de valores liberais,
adeptos de um pensamento livre e de uma nova ordem política para a colônia. Era
possível - de acordo com suas palavras - que alguns deles necessitassem
abrigar-se em minha propriedade ou que tivesse de recebê-los para tecer
estratégias a fim de viabilizar a concretização do que tanto lera nos textos
iluministas. O inverso também poderia ocorrer, mas era menos provável que eu
tivesse de deixar minhas poucas terras.
Que doce aventura! Finalmente
abandonaria a teoria para enveredar em uma grande causa...
Passei, portanto, a esforçar-me
para decorar uns poucos símbolos e palavras, as quais deveria procurar encaixar
mesmo nas conversações mais superficiais. Assim, reconheceria e seria
reconhecido entre companheiros de ideais, embora me faltasse, como me alertara
o tutor, conhecimento mais profundo sobre o que realmente era aquela
fraternidade de irmãos construtores de um novo e promissor futuro da nação.
Confesso que, como um jovem de uns 17 anos, a ideia de aventura era mais
aprazível do que o sucesso dos intentos liberais.
Meu tutor então me presenteara
com um anel ornado com um símbolo maçônico. O objeto me facilitaria a encontrar
as relações a que estava destinado e seria um amuleto para me fazer lembrar do
grande ideal.
É nesse ponto que minha regressão
deu um salto no tempo, talvez alguns meses ou um ou dois anos no máximo.
Vi-me então em situação jamais
imaginada. Estava em um front de batalha. Sujo e sem o costume da rotina rude
de um soldado, aquela situação era terrivelmente penosa para mim. Meu
comandante certamente nunca ouvira falar de Voltaire nem me consta que fosse
realmente alfabetizado. Os planos feitos com meu tutor não se concretizaram e
dava-me conta que uma nova pátria não se construiria somente com tijolos de
ideais; ela, na verdade, parecia era exigir muito sangue.
Tive um pequeno acidente com meu
fuzil. Não sei ao certo do que se tratou, mas perdi dois bens: um dedo anular e
o anel com o qual havia sido presenteado pelo tutor. Certamente a perda do dedo
me foi mais dolorosa. O anel se foi, assim como se foram todas as minhas
ilusões do passado.
Sentia-me traído pelos ideais
acalentados com tanta esperança e fervor pouco tempo antes. As letras, por
melhor que fossem as ideias que vestissem, não faziam frente às forças mais
poderosas do mundo: a solicitude pela sobrevivência e o medo do desamparo e da
morte.
A colônia fora vitoriosa,
surgiria o novo país, porém eu voltava eternamente vencido à propriedade de meu
pai.
Meu papel na batalha fora curto,
mas suficientemente marcante. Tornei-me amargo. A bebida substituiu as
leituras; lamentar a própria existência substituiu às grandes aspirações; o
sexo com uma das escravas tornou-se o remédio para o tédio. Assim me
transformei em um jovem abjeto de uns vinte e poucos anos.
Contraí certa doença venérea que
combinada ao alcoolismo me fazia às vezes enlouquecer.
Foi quando, junto de outros
escravos – e a bem da verdade, na fazenda eram livres, pois faziam o que bem
entendiam – comecei a participar de rituais de magia na tentativa de curar
minha enfermidade. Tais práticas pareciam mais desvarios, em que o álcool e o
sexo entorpeciam a mente e o corpo, prometendo a fuga de todas as dores.
Embrutecido, perdi a noção do
tempo.
Uma moça, no entanto, apareceu na
fazenda. Tinha sido moradora e senhorinha de propriedade vizinha. Jovem e bela,
a adversidade da guerra lhe fora mais cruel. Soldados da própria colônia
roubaram-lhe o mais precioso pudor. Para piorar, engravidara. Completamente
desamparada e só, lembrara-se de pedir auxílio em minha casa.
Minha autocomiseração não me
permitiu compaixão maior, a qual ela sem dúvida merecia. Contudo, para
honrá-la, propus casar-me com ela e adotar a criança que nasceria.
Foi um bem que fiz, não porque
fosse bom. De fato, era-me indiferente ao ato, mas parecia-me algo certo a
fazer.
A presença da mulher um pouco
mais jovem do que eu inspirou-me certo pudor. Deixei de lado os rituais e a
amante escrava, mantendo meu namoro somente com as garrafas de conteúdo etílico.
O álcool corroía-me a lucidez; a doença, o corpo. Vivi isolado por uns poucos
anos, ainda que na companhia de minha esposa e de minha filha adotiva, embora
não as tratasse como tais. A menininha era loira, bonita e implorava-me, com a
presença desconcertante, o carinho paternal. Nada tinha a dar a ela.
Foi quando a morte me chegou.
Talvez contasse uns 28 anos.
É a partir de agora que essa
lembrança, antes de todas as lembranças da atual existência, fica mais
interessante: vi-me ao lado de meu corpo morto, em cova cavada em minha
ex-propriedade. Estava ligado a ele pela doença genital e ainda sentia as dores
e comichões de outrora. Era um quadro aterrador de ver e de vivenciar.
O espanto jogou-me para fora de
mim, para fora de minha autopiedade e deixou-me lúcido para a presença de um
benfeitor que se aproximava com sua condição etérea de quem conhecia melhor
aquele novo mundo insólito. Ali estava ele, meu jovem tutor, acolhendo-me como
espírito que já se tornara.
Embora fosse também jovem – não
teria vivido mais do que 40 anos -, era de uma lucidez invejável naquelas
condições propostas pela realidade da morte. Aproximou-se de mim gentil como
sempre e revelou-me, de alguma forma, em minha tela mental, qual deveria ter
sido meu destino.
Era o meu tutor, amado tutor,
novamente a educar minhas energias psíquicas e a conduzir-me à luz do
entendimento. Quanto eu recebera, pelas letras e filosofia, do tesouro
imaterial do espírito... Fora nos repertórios políticos e filosóficos
compartilhados no seio da maçonaria de então que eu bebera a mais pura essência
divina, o deísmo de Voltaire, sem o dogmatismo religioso - cegueira da
humanidade.
Recebera simbolicamente a régua e o compasso, para conduzir meus
passos com firmeza e convicção quando tudo me viesse a faltar. Exclamei
arrependido: “Essa doutrina de luz... Essa doutrina de luz...” – enquanto
desabei em pranto.
Então vi o que ocorreria se, em
vez da revolta após a guerra, resignado, eu voltasse à fazenda. Lá eu chegaria,
reencontraria alguns poucos escravos de outrora que se uniriam a outros
perdidos do caminho, cujos donos estivessem mortos. Refletindo sobre os textos
que pregavam a igualdade, fraternidade, liberdade e justiça, naquela
propriedade fundaria eu uma república simbólica, alfabetizaria quem quisesse
ser alfabetizado e compartilharia os ideais liberais com aqueles que
escolhessem ficar. Seria uma fazenda escola, um oásis de esperança onde eu
envelheceria cercado de ternura e alegria. Era um sonho possível em um lugar
esquecido daqueles.
Entretanto, falhei em minha
tarefa pessoal, aquela que se realiza em função do outro para atender às
próprias demandas íntimas. Falhara com os outros e comigo mesmo. Os escravos
estavam livres na propriedade, mas embrutecidos. Minha filha adotiva fora marcada
pelo meu desinteresse e aparente desprezo. A mãe dela estava condenada a mais
absoluta solidão.
“Agora você é um professor” –
lembrou-me o tutor.
Ele estava comigo na sala de
Heitor, sinto que tivera papel ativo na condução da regressão.
Despertei do transe psíquico.
Escrevendo 3 anos após todo esse
evento, posso afirmar que depois dessa memória pregressa a fixação passou por
completo.
Analisá-la como um sonho é
possível, também o é como uma vestimenta simbólica para as demandas psíquicas
atuais. No entanto, algumas informações da época totalmente desconhecidas – e
pesquisadas a posteriori -, como vestuário, mobiliário e movimentações
políticas na colônia inglesa do norte da América, são uma incógnita cuja única
explicação encontro na teoria – para mim, verdade – da reencarnação.
Nada acabou na cova de outrora,
nada está prestes a acabar. Tudo ruma à perfeição.
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