domingo, 27 de novembro de 2016

A visita do coordenador



“Esse povo honra-me com os lábios, mas seu coração está longe de mim”
 Mateus XV, 8-9.

A Bíblia é livro vasto, ou melhor, são livros. Neles há um universo de simbologias e de versículos, com interpretações das mais diversas e sobre as quais vão se fundando religiões e se organizando instituições. Se estas são pela paz e pelo amor ao próximo, que sejam então... mas quando nelas começa a prevalecer o espírito de sectarismo, parece que vão se atacanhando e voltando à época dos judeus perdidos no deserto, divididos entre o Deus único - e sua terra prometida - e o ímpeto de juntar todo o ouro de seu povo para fazer uma imagem a que se adorar.
                                            
***

“Oh, quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união” – o salmo recitado na igreja ainda ressoava na mente do coordenador, enquanto deitava, fechando os olhos para dormir. Sorria, era feliz por ser um homem cristão e trabalhar numa escola que lhe esposava o modo de pensar e sentir; sentia-se um servo do Senhor vivendo entre os seus, “que bênção!”. 

O final do ano chegara, faltavam os arremates, um ou outro aluno que precisava de nota extra a ser concedida ou negada pelo conselho de professores, nada de mais... praxe do encerramento anual. O coordenador sempre ponderava sobre os votos com antecedência, expunha detalhes da vida do aluno que pudessem ser ignorados pelos professores e influenciariam numa possível decisão. Mais do que pessoas éticas, como seguidores da mensagem cristã, tinham horror à ideia, por mais leve que fosse, de cometer uma injustiça com o aluno. Reter um estudante por mais um ano, injustamente, seria não só traumatizá-lo, mas agir contra o Reino pregado nas consciências de seus mestres, coisa seriíssima, ainda mais nos últimos anos do ensino médio.

Naquela comunidade escolar, estavam muitos filhos dos membros de congregações irmãs, de famílias que se frequentavam, enfim, dos irmãos que suavemente procuravam viver em comunhão. Os pais, comerciantes, profissionais liberais, professores, empresários, bancários, estavam todos muito felizes por confiarem a educação e formação moral de seus filhos à escola construída por seus pares. 

“Pequenos e imprescindíveis afazeres: grandes glórias, no seio da nação que é feliz porque nela Deus é o Senhor” – o sono bafejava-lhe as últimas ideias antes do transe profundo que transportaria o bom e amado coordenador a mundo menos real, porém talvez mais lúcido.

Levantou-se da cama, dentro de sua rotina habitual – estava num sonho sem que se desse conta disso.
Vestiu a camisa da escola, com o logotipo do cordeiro. Passou a mão esquerda sobre o animal bordado no peito, com a flâmula e a chama - tão belos símbolos. Como é natural dos sonhos, outros detalhes se perderam. Estava agora chegando à sua sala, abriu a porta, e o susto! Por Deus, estava diante de si mesmo ou de um outro dele mesmo. Levou as mãos à cabeça, faltou-lhe o ar, as palavras. O outro de si estava sentado em sua cadeira, fitava-o com um olhar confiante, inclinando o corpo para trás, quase se espreguiçando. Apontou para a cadeira atrás da mesa: “Vamos, Marcos, sente-se, precisamos abordar alguns assuntos que estão na pauta desta noite”.

Olhou pela janela e viu os raios já maduros da manhã. Estranhou, portanto, o comentário insólito. Mas o estranhamento não foi o bastante para que percebesse se tratar de um sonho, pelo contrário, despertou-lhe quase um pavor, no entanto com terrível curiosidade pela imagem de si.

Seu interlocutor, apesar do rosto e corpo idênticos aos seus, vestia-se de maneira afetada demais para um coordenador. Usava dois anéis de ouro, terno, camisa e gravata pretos, o cabelo penteado minuciosamente para trás. Os sapatos, também pretos, brilhavam. Marcos os via, porque o seu outro, em atitude displicente, os colocava sobre a mesa entre eles, como se fosse o mais presunçoso dos chefes.

“O outro”, como Marcos o chamou mentalmente, empurrou-lhe uma calculadora e ordenou-lhe que fizesse uma conta. “Vamos lá, Marcos, multiplique aí 750 dinheiros por doze.”
Entre humilde e estupefato, o verdadeiro coordenador resolveu aceitar a situação absurda e fez o cálculo: “9.000.”

“Então, 9.000 dinheiros! E o que se faz com uma monta como essa hoje em dia, caro Marcos?” – questionou arguto “o outro”.

“Não sei... uma viagem à Disney, à Europa, dá-se entrada em um carro ou compra-se uma moto... não sei” – Marcos ficou um pouco desconcertado; não sabia aonde o outro desejava chegar.

“Pois é, Marcos... é dinheiro, hein... Jogar  fora 9.000 denários por causa de um serviço que não foi feito corretamente pode deixar o contratante bem nervoso, não é?”

O coordenador verdadeiro então entendeu a questão. Pais eram clientes que haviam confiado e contratado os serviços educacionais da instituição. Se os filhos falharam nas provas, seu fracasso devia-se unicamente à incapacidade da “empresa” em cumprir com o contrato de serviço assinado um ano antes – a lógica capitalista era tentadoramente irrefutável do ponto de vista de que a escola vendia um produto, junto com o material e o próprio Cristo.

Porém, o que “o outro” ali teria a dizer sobre a questão humana? - perguntava-se Marcos. 

“O outro”, contudo, tinha sim o que dizer...

A “questão humana” era, mais do que Marcos podia imaginar, uma questão bem prática para “o outro”.

“Marcos, você sabe quem são os pais desses alunos que foram para o conselho de professores?”

O coordenador percebeu que o intruso, além de soberbo, entendia bem de retórica. Um era filho de comerciante muito ativo nas campanhas solidárias do colégio, porém não completamente desinteressado em sua caridade. As duas irmãs eram filhas da diretora, que viajaram para França em setembro, por causa de uma promoção imperdível da agência de viagens; faltaram dois dias para obter os passaportes e mais vinte dias devido à viagem inadiável de seus sonhos, perdendo aulas e provas. Não bastassem estes, existia ainda o caso de um menino que fora arrastado por conselhos durante três anos e que mal tinha condições de ler, escrever e fazer contas, não por limitações de ordem mental, mas por completa e irrestrita desmotivação – “o tal já tinha a vida ganha na concessionária do pai”, todos sabiam. 

Estavam ali elencados os casos de maior destaque para o conselho decidir. A oratória do coordenador teria peso...

“O que me diz, Marcos, eles valem o seu cargo? O conforto de sua família? É... porque você conhece a diretora e os mantenedores da escola... A política, Marcos, a política. Rei morto, rei posto... Depois aguente o rojão, a reclamação será feita em conversa informal depois do culto, na igreja, Marcos, na igreja... E a diretora vai fazer virar questão pessoal... já pensou uma demissão? Quinze anos jogados no lixo? E que outra escola como essa você vai achar, escola em que você está entre irmãos, Marcos, entre irmãos... E a sua reputação entre “os irmãos”, como explicar que a sorte voltou-se contra um legítimo servo do Senhor? Pense Marcos...”

“O outro” continuava a falar e admoestar, a inferir, a exemplificar, a desenhar um futuro hipotético em detalhes, e a elogiar a arte de decidir com discernimento e prudência, enquanto um calor ia subindo no corpo de Marcos, fazendo-o descalçar seus sapatos pretos, tirar seu paletó preto, desfazer o nó de sua gravata preta para poder respirar e, finalmente, acordar suando em sua cama.

“Meu Deus, visitou-me o próprio Satanás!” – exclamou baixinho, passando a mão nos cabelos empapados de suor.

Levantou-se ainda impressionado. Bebeu água, foi ao banheiro, lavou o rosto, olhou-se no espelho. Encarou-se e ponderou cristãmente: 

“É claro que esses alunos têm de passar de ano, mas é por uma questão de humanidade, de humanidade apenas. De mais a mais, a vida ensina! Talvez em outra escola fosse diferente, mas, na nossa, é o ser humano acima de tudo.” – estava convencido:  o diabo não ia induzi-lo a acreditar que seus motivos para defender os casos dos alunos não tinham nada a ver com educação ou cristianismo, não ia mesmo, “ah, não ia!”.





Nenhum comentário:

Postar um comentário