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segunda-feira, 22 de maio de 2017

Bastardo


Bastardo. Reiteradas vezes o avô paterno o chamara assim.

Com cinco anos, ele não sabia o significado do termo, mas a agressividade com que o homem calvo e branco o pronunciava fazia-o adivinhar que não era boa coisa ser bastardo.

O pai, se ouvia, não fazia nada para desdizer o dito. Talvez fora dele mesmo que partira a acusação: o menino seria filho de outro homem que não ele. Assim teria justificado a separação precoce. 

Se esse era o fato, no entanto, por que passara a buscar o garoto aos domingos?

Se a criança era sabidamente bastarda, por que levá-la à casa dos avós que não eram dela?

A ideia era fazê-la refém para vingar-se da suposta traição da ex-mulher?

O velho era rude não só com o garoto, era um demônio a expelir ranço pela boca. Sua esposa, pequenina, era calada, possivelmente cativa do tirano da casa. A criança via no olhar da avó uma dor maior do que sentira ao ser chamada de bastarda. A dor da mais velha acolhia a do mais novo.

O menino amuou-se. 

Ao que se sabe, pai, madrasta e menino não ficaram mais do que meia hora na casa dos velhos. Lá estava também a irmã do pai, talvez indiferente ao que passava - quem se acostuma com violência desde a infância deixa de reconhecê-la em algumas de suas formas mais corriqueiras.

Por fim, no início da noite, o menino foi devolvido à mãe com a palavra que ganhara.

- Mãe, o que é bastardo?

Se a expressão "laços do passado" tem um sentido, pessoas separadas com filhos conhecem-no muito bem. É difícil resignar-se diante de um cativeiro simbólico que, frequentemente, assume a forma de uma criança. Quando o filho ou a filha possui traços físicos ou até o tom de voz do ex, a sensação de ser visitado pelas sombras dos enganos - geralmente da juventude - pode gerar aversão e, por esse motivo, culpa em quem é pai ou mãe.

A mãe exasperou-se. Onde o menino ouvira a palavra?

Já não bastava a ideia insuportável de encontrar o ex-marido - domingo sim domingo não -, de entregar o filho a ele, deixar que o filho se contaminasse com a fala e os modos dele, com os valores dele, com os trejeitos dele, agora tinha de ouvir uma palavra que vinha como acusação que, se não era familiar a ela, levantava suspeita de que a outra família a considerava adúltera?

Como explicar a palavra e o que ela pressupunha? 

No contexto, ela indicaria a traição da mãe, ao menos uma relação sexual fora do casamento, uma vilania materna. A mãe amada não seria mais perfeita aos olhos do menino?

Soube que fora o avô a ofender seu filho. Irritou-se, odiou o velho. Vociferou. E o garoto sentiu que a questão era ainda pior do que parecia. 

O fato de a mãe não ter sido adúltera e, portanto, de o garoto ser um legítimo filho e neto, tornavam tudo pior para a mulher. Contudo, o menino passou a ter dúvidas...

Seu pai era, aos domingos, um homem atencioso, simpático, criativo e bom. Não era pai? Era pai?

A mulher dele, ex-amante, era visivelmente contrariada com a presença da criança, um laço de um passado que não era o dela, mas que se enrolava em seus pés causando tropeços. De qualquer forma, se  o garoto não era bastardo de sangue, estava sendo na criação. Ela parecia odiá-lo até nas pequenas sutilezas. O sacrifício de aturar, com disfarce, era para ela um ofício custoso. Não convencia.

O homem era submisso a ela. E os domingos eram assim: melhores longe dela, quando o pai era pleno. Porém, o pai era sempre triste, quase sempre dela.

O menino passou a desconfiar que o pai não era pai. A ideia se inculcara em sua cabeça. A mãe dizia que sim. Tudo era muito confuso. Quem era aquele homem afinal?

Domingo sim, domingo não. Essa passou a ser a contagem do tempo. Angústia na noite do sábado que precedia a visita. Angústia na noite do domingo após voltar da casa do pai.

Casas tão diferentes, regras tão diferentes, tratamento idem.

A mãe legítima não era de brincar, falava pouco com o menino e muito com muitas outras pessoas ao telefone. O pai era de inventar, falava com o garoto sempre ancorado na imaginação. Era a realidade insuportável demais?

Faltava ar ao menino com frequência. Passaram a dizer que era um menino doente.

Por que mãe e pai eram separados? Essa resposta não havia.

Quando a família do pai ou da madrasta tinham contato com o bastardo, o garoto sentia-se deslocado. Nada precisava ser dito. 

Ele sabia exatamente que não estava em seu lugar.

Era doloroso para ele, certamente também o era para o pai. Mas será que não fora o próprio pai que dissera à família que o garoto era filho de sua ex-mulher com outro?

Na época não havia testes de DNA. Legalmente, o filho era dele. Inclusive, registrara-o com o nome que escolhera, contrariando a vontade da mãe legítima.

Os traços eram quase todos da mãe, e isso ajudava a aumentar a suspeita. (Não ver o pai nos traços do filho sempre é motivo de suspeita, o contrário, naturalmente, não.) 

Os domingos de visita eram meio aversão, meio paixão. Deviam ser ao pai também. 

O que ouvia de sua mulher entre os domingos?

O que o menino ouvia sobre seu pai entre os domingos?

Os lados antagonistas certamente se aliavam inconscientes. 

A quem julgar?

O pai não era homem suficiente, o menino também não o era.

A dança de cinco anos entre os dois seguia uma música, e toda música está fadada a acabar. As sinfonias são mais longas, as cantigas não.

Quando o menino contava dez anos, nasceu uma menina.

Se havia empenho do pai em visitá-lo, a partir de então, perdeu o viço, a cor e talvez o sentido.

O garoto também já tinha padrasto.

Talvez o padrasto, que o visitava pelas palavras do menino, lembrava ao pai que ser pai é algo sério. Foi ele então ser pai de uma menina e, depois, de outra também. Certamente um pai maravilhoso - ele tinha o dom.

Do menino, foi só um pai bastardo, ilegítimo e infiel. 

E se todas as mentiras para sustentar coesa uma família se transformam em um bordado na casa paterna, ei-la: é uma toalha grande e colorida - sempre ela - a enfeitar, aos domingos, a mesa de jantar.











domingo, 4 de dezembro de 2016

O Exorcismo de Satanás

O Exorcismo de Satanás

Há dias em que até as Trevas perdem a paciência com o modo como se pratica o Mal. Nesses momentos, o próprio Satanás sai de seu reino para visitar os mortais, deixando-os estupefatos com sua presença e personalidade. Um detalhe: ele só visita religiosos, ou seja, aqueles que nele creem. Para os demais, existem outros métodos mais simples, porém não menos eficientes.

Antes que você pense que estou de chacota, sugiro que continue a leitura e, ao final, reflita se eu não tenho razão. Se discordar, fique livre para contra-argumentar, desprezar esse conto ou, como é verdadeira moda - tão ao gosto do próprio Satanás -, fique à vontade para me odiar. Somente sugiro que antes leia o texto por completo e não tenha pressa para tirar conclusões.

***

- Boa noite, bonitão... - o Satanás em satanás (para não dizer em pessoa), saudou o pastor Veríssimo que, voltando do culto,  acabara de entrar em casa e acender a luz.

Todo o ambiente cheirava enxofre. Uma sinfonia de moscas dava a impressão de que o santo homem entrara no espaço de um monturo carnicento.

Pastor Veríssimo, tomado de completa perplexidade, levou a mão esquerda ao peito, deu alguns passos para trás e, lembrando-se de sua suposta envergadura moral e do Livro Sagrado na mão direita, muniu-se de coragem e avançou em direção à maligna criatura que estava confortavelmente acomodada em seu sofá. Pensou: "Terei de terminar aqui o que achei ter acabado na igreja." 

- Saaaaaaaaaaaaia, Exu, em O Nome do Senhor! - e foi colocando a Bíblia nas fuças do capeta.

Com a ofensiva já esperada, Satanás deixou de pirotecnia. Fez que sumissem as moscas e o forte odor do recinto e, simplesmente, transfigurou-se. Agora parecia um homem sério, de vestes sérias e elegância irreprimível. Tudo isso num átimo de segundo.

Com certa tranquilidade de quem já conhece o ser humano há milênios, o "homem de negócios" repreendeu Veríssimo:

- Acho que o senhor está confundindo as bolas. Até onde sei, Exu é algo fora de nossas teologias. O senhor estudou essa matéria, não é mesmo? Exu não é palavra que se aplique à minha natureza. Aliás, se o senhor mudar de religião e teologia, eu sumo neste instante. As religiões que cultuam os Exus nem me conhecem, tampouco se preocupam comigo. Inclusive, na verdade, essa é uma das questões que me trazem aqui. 

- Então, demônio, me propões que abandone o Senhor... Aaaaaah, Pai da Mentira!! Estás me tentando? - a verve apostólica se apossava de Veríssimo.

- Sente-se, homem - convidou Satanás, sem intimidar-se, demonstrando certo fastio até.

- Abandonei meus artifícios retóricos e peço que, em solidariedade, o senhor faça o mesmo. Vou logo explicando para que você não se iluda. Palavras santas escritas em papel não santificam o papel; o mesmo acontece ao homem, palavras santas na boca de um homem não o santificam. Veríssimo, ponha uma coisa em sua cabeça: nós dois somos praticamente da mesma natureza.

A satânica observação roubou as palavras do pio pastor, o que foi muito útil para que a conversa não se alongasse desnecessariamente. Foi quando Satanás o pegou pela mão, fazendo-o sentar-se ao seu lado.

A partir de aí, a trevosa criatura adotou tom mais didático:

- Primeira questão que quero bem clara em sua mente, Veríssimo. Estou aqui porque você tem me dedicado toda uma igreja, pensando inclusive em abrir filiais. Então, se a igreja é minha, gostaria eu mesmo de estabelecer as regras e o estilo de culto.

Ainda que seu interlocutor permanecesse calado e estarrecido, o bom Satã adivinhava-lhe os pensamentos.

- Ora, Veríssimo, não me venha com essa que sua igreja é de Deus. Não há nome mais citado lá do que o meu. Não há mais feitos lá relatados do que os meus. Não há mais descrições sobre imagens do que as minhas... Ora, Veríssimo, a sua igreja, a bem da verdade, foi aberta em meu nome.

- E é aí que a coisa tem se complicado. Você tem confundido os nomes, Veríssimo. Está faltando elegância. Me desculpe dizer, mas está faltando coerência teológica. Sejamos francos, Veríssimo, está faltando estudo. Lúcifer é uma coisa, diabo é outra, demônio é outra, Belzebu outra ainda distinta e Satanás é outra. Você não teve aulas de etimologia e interpretação de textos bíblicos?

- Rapaz, além disso, vê se esquece dessa coisa de Exu. Já disse, isso é outra teologia, uma crença dentro da qual eu nem existo. Precisamos ser coerentes, Veríssimo. Eu sou uma ideia elegante, não posso ir sendo confundido com outros nomes. Repare, eu só sou tirado das pessoas porque eu habito nelas. E às vezes, para ser sincero, até me confundo se, na verdade, não são elas que estão em mim - como tem sido particularmente o nosso caso.

- Sabe, Veríssimo, até no Mal nós precisamos ter ética. O Mal é racional, estratégico, elegante, sedutor. O Mal é perfeito em sua natureza, e eu, como seu infernal representante, não posso deixar que você faça uma caricatura tão tosca de mim. Se for para continuarmos essa empreitada juntos, exijo respeito, disciplina, dedicação e, sobretudo, estudo.

- Pense nisso! Pense com carinho. Amanhã quero uma resposta. Se for para fecharmos verdadeiramente esse trato, chegue à igreja meia hora antes. Eu vou me colocar ao seu lado sem que ninguém me veja e vou soprar ao seu ouvido tudo o que você terá de falar e fazer. Esse será seu treinamento durante seis meses. Depois eu visitarei sua igreja uma vez por mês para que nós não percamos contato. O que acha?

Antes de uma possível resposta, Satanás alertou:

- Você não é obrigado a fazer esse pacto comigo. Mas já aviso de antemão que não vou admitir o que tem feito. Se você continuar com isso, todas as noites depois do culto nos encontraremos aqui em sua sala.

O pastor Veríssimo?

Mudo. O homem ficou completamente mudo. Nenhum A se ouviu daquela boca santa.

Assim foi que, envolto em uma nuvem de fumaça, Satanás retirou-se. Diga-se de passagem: a criatura sempre adorou uns efeitos.

No dia seguinte, na hora do culto, a igreja não abriu. Os fiéis ficaram preocupados. O que teria ocorrido ao pastor Veríssimo?

O fato é que ninguém mais o encontrou. O imóvel da igreja voltou a ser posto para alugar, e o que foi ouvido entre alguns frequentadores da antiga congregação é que Veríssimo deixara de ser pastor e fora trabalhar com a venda de planos odontológicos. 

Certo dia, ouviu-se uma irmã comentar:

- É, tem que se ficar atento com o Satanás, ele tem seus ardis para tirar homens santos da igreja.

O que ela jamais imaginaria é que o próprio Satã - em satanás - concordaria totalmente com ela. 

Quando se encontra o Próprio frente a frente, ninguém mais volta a ser o mesmo.


sábado, 3 de dezembro de 2016

Ensaio sobre um Pai morto

          Na boca da campa ou Ensaio sobre um Pai morto

  
            Essa história é breve e um tanto interessante.
         João Nascimento, um homem de fibra e fé, nunca logrou êxito em infundir no filho sua mesma inclinação em acreditar na metafísica da alma, na vida espiritual e na continuidade da individualidade do ser após a morte. Para todas as outras coisas, o jovem Murilo tinha ouvidos, mas não para as “superstições” que a ciência haveria, um dia, de aniquilar.
           O pai, contudo, não condenava o filho pelas ideias materialistas já de longo esposadas desde os tempos da escola. Respeitava-lhe sempre, embora lhe doesse a ideia de que Murilo, quando chegasse o fatídico dia da própria morte, talvez não estivesse preparado para fazer o passamento com dignidade e sem largo constrangimento. Ou seja, João Nascimento preocupava-se com a ausência de orientação espiritual do rapaz.
           Vendo chegar a idade avançada, saltou-lhe à mente uma excêntrica ideia. Decidiu escrever o discurso a ser lido diante de seu próprio caixão em ocasião do enterro. Determinou que Murilo, seu único filho, faria a leitura diante de amigos e parentes. O texto de despedida seria um tratado didático sobre a morte e a vida espiritual.
            O rapaz, embora não fosse afeito também a solenidades, certamente em vista da grave ocasião não se furtaria a atender aos últimos desejos do pai. Se seria uma contrariedade ler o discurso, não passaria de uns poucos minutos.
            O fato é que a morte de João, ainda que morosa, um dia chegou. Na ocasião, contava ele com 83 anos, enquanto Murilo, não mais um rapaz, alcançara uns 50.
            Velou-se o corpo.
            Pouco mais tarde, diante da campa, chegara o momento em que Murilo leria as palavras do próprio pai para o próprio pai.
Sua voz iniciou embargada, as mãos um pouco trêmulas seguravam o papel cujo conteúdo manuscrito revelava o desvelo com o qual escrevera o autor.
Murilo iniciou uma leitura pausada e cadente, sem dar-se conta de que seu pai, ainda que morto, fazia-o tomar parte em um ritual de fala direta com um ente morto.
            Analisemos:

            Entras agora tu pelo que nós daqui chamamos 'sombra da morte', porque nos é vedado conhecer teu destino. É esta sombra o nada? Não o sabemos. Assim defini-la categoricamente não nos convém, pois, pelo caminho misterioso para o qual a tumba é a porta, os nossos cinco sentidos grosseiros não nos permitem nada avaliar, a morte definitivamente não lhes diz respeito. Suponhamos, no entanto, que a metáfora 'sombra' corresponda a algo menos promissor que a escuridão, ou seja, de fato, o 'nada'; o que isso significaria para nossa jornada existencial e individual? Filósofos do passado disseram: Sendo o nada o futuro no qual acaba o tudo, que é a vida, a morte torna-se a ausência de todas as dores físicas como também das angústias, dos pesares, dos arrependimentos, das mediocridades ou genialidades do finado. Melhor fim não haveria para o injusto – a partir de seu próprio ponto de vista, é claro. Mais intenso descanso não haveria para o oprimido. Maior decepção não haveria para o curioso, como tu mesmo o foste. Se assim o é, não me ouves agora. Contudo, falo. Isso porque o nada não é uma certeza, mas somente uma possibilidade. Sendo assim, pode ser que, sem o sentido físico da audição, ainda me ouças. Suponho que me ouças...
            Falo, portanto, por acreditar que ou podes estar lúcido, ou porque as palavras em alto som a ti dirigidas podem acordar-te o espírito preso às perturbações do transe da morte. Acordas no mundo do espírito ao qual todos pertencem e ao qual voltam todas as noites, durante o sono emancipador. O véu de Isis agora descerra-se para ti e convida-te para nova jornada. E, por estas palavras, tu mesmo te diriges a ti, tua palavra que ficou escrita neste mundo visita-te no mundo que tu neste momento divisas. Elas te perguntam: “Existe Deus? Ele é bom? Há razão na vida? Há algo que valha nos sofrimentos? Há o Juízo, a roda das encarnações? ou tudo na existência é degredo, separação, tristeza e morte?”
            Fizeste da vida o que podias, deste a tua esposa tua fidelidade, lealdade e a chave de teu íntimo universo – melhor não poderias ter feito. Recebeste dela valor igual, em melhor moeda, porque sentir-se amado por quem se ama é tesouro raro no mundo em que habitaste – melhor não poderias ter recebido. Ela atravessou essa porta antes de ti. Estão juntos agora? Ela te busca? Ouve ela também estas palavras? Tu gostarias de acreditar no sim para as três recentes perguntas. E agora tu sabes...
            Teu filho único certamente tem queixas contra ti; qual filho compreende completamente o próprio pai? Foste bom para ele. Foste provedor, disciplinador. Deste-lhe também o amor e o afeto de pai. Consentiste que ele fosse o autor da própria via, sem negar-lhe o amparo necessário. A modéstia não te impedes, contudo, de confessar-te como bom pai. Entretanto, não conseguiste soprar-lhe pelas narinas a grande crença que te animou desde os primevos tempos da juventude; ele, qual Tomé, pediu provas. Tu não foste capaz de dá-las. Fizeste de ti mesmo, desse modo, o pai excêntrico, crédulo, paradoxalmente culto nas letras e infantil na crença. Isto aos olhos de teu filho. Mas tu o amaste e o amas de todo o teu coração. Não deixaste que o tempo de dizer-lhe se perdesse. Dá-te agora por feliz em tê-lo feito. Se tudo é como crês, nesta hora tu o comtemplas, olha-o a segurar teu testamento de fé, escrito outrora na solidão de teu quarto, e daí acenas-lhe e sorri, com o maior amor do mundo, afirmando, no inaudível invisível: “Estou certo, filho.  A morte não existe!”
            Ouve-lhe a voz a repetir as palavras que escreveste para esta ocasião. Logo ele, tão avesso a solenidades e à segunda pessoa do discurso.
            Sobre tua lápide será escrito: “Creio na felicidade, no Amor. Vivo. A cova é pequena demais para meus sonhos...”
           O epitáfio acompanhará as duas datas que marcam tua jornada terrena. Dois pontos perdidos no espaço infinito do tempo. De que te importa, tu não habitarás esse lúgubre cômodo!
           O melhor de tuas obras foi o que construíste no coração dos teus.
        Deus foi bom contigo, permitiu que escreveste estas linhas com tudo o que tanto acreditas. Descansa agora. Os teus do passado estão contigo. Descansa... Adeus!
            Tu olhas teu filho e sabes que tens dele tanto amor. Descansa...

            Não há dúvida de que Murilo ficou profundamente tocado. Comoveu-se, verteu lágrimas ao longo e ao fim da leitura. Desejou de todo o coração que tudo que ali estava fosse verdade, mas não se acreditava capaz de crer, não havia sido talhado para aquilo. Por fim, quando todos se foram e só  restou ele diante do recém-fechado túmulo, sentiu ouvir no silêncio do cemitério o mais eloquente discurso que a natureza sempre faz sobre a morte. Portanto, ele não ouviu absolutamente nada – porque o silêncio é nada para quem busca respostas precisas.
Foi assim que sentiu a dor da mais profunda ausência, da mais terrível saudade. Prostrado, sem força que o consolasse, viu-se em desamparo: Como seu pai poderia com tamanho otimismo atravessar umbral tão misterioso?

Pobre Murilo, que não se agarrava a superstições... 




domingo, 27 de novembro de 2016

No compasso da vida

No compasso da vida

Contava 36 anos. Com o passar de algumas semanas, germinara-me entre os pensamentos aquele que se mostrou em pouco tempo um incômodo mal psíquico, embora inofensivo: uma ideia fixa e perturbadora, ideia sem tréguas a que frequentemente passaram a convergir certas elocubrações - todos os pensamentos um a um pareciam ser dragados por um grande buraco. Para alguns viciados, seria o jogo; aos avaros, a visita mental ao saldo bancário; mas, a mim, a ideia inexorável e vaidosa – porque desejava todas as atenções – era o conhecimento da simbologia maçônica.

Por que maçonaria e não outra coisa qualquer?

Àquele tempo, se me perguntassem se gostaria de tornar-me maçom, responderia com convicção humilde que não. Contudo, a compreensão dos ritos e símbolos dessa “ordem discreta”, como afirmam alguns, parecia-me de todo irresistível, a tal ponto de me deixar contrariado com as próprias tergiversações.

Nessa mesma época, para alívio meu, frequentava um terapeuta, um psicólogo que, seguindo a chamada linha da Psicologia Transpessoal, não oferecia resistência a temas como reencarnação, projeção de consciência e experiências extra-sensoriais. Tais assuntos, de outro modo, seriam enquadrados no diagnóstico popular como misticismo, excentricidade ou loucura. No clínico, seriam utilizadas palavras mais interessantes, talvez esquizofrenia ou, no mínimo, uma combinação de nomes de transtornos louváveis. Entre “ser e não ser”, às vezes é melhor não ser. De qualquer modo, como entendíamos reencarnação como um fenômeno possível – embora cada um à própria maneira – éramos ambos completamente normais para budistas, hinduístas e espíritas – melhor ser do que não ser.

Portanto, companheiro leitor ou leitora, se você chegou até este parágrafo, saiba que daqui em diante atravessará por sua conta um umbral, uma entrada, cujas paredes estreitas podem ser chamadas fantasia ou realidade. Escolha o nome que lhe aprouver, e sigamos caso lhe agradem relatos insólitos. No entanto, desista do conto, caso a vida lhe pareça algo infinitamente mais simples. Não é do meu feitio importar-me com as crenças alheias nem tampouco fazer proselitismo das minhas próprias idiossincrasias. O que sei é que a narrativa posterior não é outro relato que não o dos fatos que presenciei em minha tela mental e senti como verdade em todo o meu ser.   

Vejo que decidiu prosseguir. Menos mal, agradeço com sinceridade – é sempre bom deparar-se com ouvidos atentos ou, neste caso, leitura acolhedora. Espero que seja recompensado(a) por sua disposição e empenho.

Após minhas queixas sobre a implacável fixação, Heitor cofiou a barba e ponderou: “Marcos, somos ambos reencarnacionistas. Diante de tudo que temos conversado ao longo de nossas sessões, não vejo por que não poderíamos investigar essa perturbação por meio de uma regressão de consciência. O que acha?”

Conforme acredito, esforçar-se para recordar existências pregressas não é algo aconselhável, exceto quando há objetivos relevantes. Porém, como pesar a real relevância do motivo em questão? Como conter a curiosidade que certamente ronda quem crê de alguma forma na reencarnação?

Consenti.

Heitor então se aproximou, ajeitou confortavelmente a cadeira de modo a recliná-la quase como um divã. Perguntou se poderíamos começar.

Fiquei um pouco apreensivo: reviver uma experiência pregressa não me traria impressões mais vivas e até inconciliáveis com meu estado de consciência atual? Além do mais, será que não reviveria no corpo de agora a dor física de outros tempos?

“Coragem” – pensei.

E foi assim que, sob a orientação sugestiva de Heitor, volitei ao passado pouco a pouco, identificando-me como expectador de mim mesmo. Vi-me criança de uns 7 anos diante de uma casa sede de fazenda, no interior de algum território no sudeste da colônia inglesa estabelecida no norte da América. Despedia-me de meu pai, que mais do que administrador de propriedade, assemelhava-se a homem de negócios preocupado com as finanças na metrópole. Partia à Inglaterra, lugar ao qual certamente se sentia muito mais ligado. A fazenda a ele não era um lar, eu também não lhe parecia algo de seu, além, é claro, de uma propriedade a quem o amor restringia-se à provisão material e intelectual. Nisso certamente ele não falharia. Nunca mais nos veríamos. Sua idade já era relativamente avançada e não tinha disposição para voltar à tediosa fazenda.

Pouco afetuoso, não concedeu abraço ou palavras carinhosas ao despedir-se, deixando-me ao cuidado de um tutor muito letrado. Do mais, estava cercado por uns poucos escravos muito fiéis que, ao que parece, tinham uma vida confortável para época, sem ressentimentos para com seu senhor. Pouco se lhes exigia; nada comparado ao que se fazia com os de outras fazendas. Eram mais livres naquela propriedade do que em outro lugar qualquer da colônia.

Mãe?

Não sinto que houvesse conhecido uma.

O homem enfim partira com suas roupas sóbrias, o seu jeito sóbrio na carruagem com sóbrios cavalos. Eu, de minha parte estava só, não muito diferente do que me sentira até ali. Estava só como a propriedade, embora sentisse sobre o ombro a mão de uma escrava jovem, cuja compaixão a respeito de minha condição era algo quase tangível.

Os anos seguintes foram calmos. Meu tutor parecia-me um jovem sensível e extremamente culto – algo que talvez eu gostaria de me tornar. Ele me iniciara na língua francesa, a qual, com a prática, comecei a ler com certa desenvoltura, não me faltando a capacidade de me expressar por escrito também. Para tanto, me parecia mais fácil o francês do que o inglês.

Estudávamos textos polêmicos para a época, eram de Voltaire. Em pleno século XVIII, tomávamos contato com escritos que revolucionavam nosso tempo. Nossa religião naquela longínqua fazenda quase de todo improdutiva era o livre pensamento. Não aceitávamos a imposição da fé, porque tínhamos a crença iluminista como um archote a conduzir não somente os nossos ideais, mas o futuro.

Confesso, meu tutor fizera de mim um ingênuo idealista. Isso me custaria caro pouco tempo mais tarde.

Em minha fazenda, às vezes uma visita: uma tia e uma prima que conversavam frivolidades sobre os costumes da metrópole. Se não podia isolar-me quanto à presença, o fazia em pensamento, deixando a meu tutor os pequenos mimos de atenção e consideração que, acredito, serviam-lhe de distração e de frugal entretenimento. Iam-se, ficava eu, os livros, as conversas com o tutor, a fazenda e os escravos. Meu pai mandava o dinheiro a ser administrado pelo tutor.

A fazenda não dava lucros, ao ausente pai era antes um refúgio ou um capricho

Mas continuemos.

Quando o paraíso se torna entediante, ou procuramos nosso fruto proibido ou o destino empurra-o nossa goela abaixo. A expulsão é certa.

Meu tutor, conforme a realidade turbulenta que se aproximava, passou a me preparar para uma transição. Creio, no entanto, que ele pensava se tratar de um problema do qual a política daria conta, quando, na verdade, o que estava prestes a ocorrer de fato era uma guerra.

Além de me ensinar com os escritos de Voltaire, que eu copiava em minhas lições, ele passou a me transmitir o conhecimento sobre alguns símbolos e palavras, que, segundo ele, me ajudariam a reconhecer outros senhores de valores liberais, adeptos de um pensamento livre e de uma nova ordem política para a colônia. Era possível - de acordo com suas palavras - que alguns deles necessitassem abrigar-se em minha propriedade ou que tivesse de recebê-los para tecer estratégias a fim de viabilizar a concretização do que tanto lera nos textos iluministas. O inverso também poderia ocorrer, mas era menos provável que eu tivesse de deixar minhas poucas terras.

Que doce aventura! Finalmente abandonaria a teoria para enveredar em uma grande causa...

Passei, portanto, a esforçar-me para decorar uns poucos símbolos e palavras, as quais deveria procurar encaixar mesmo nas conversações mais superficiais. Assim, reconheceria e seria reconhecido entre companheiros de ideais, embora me faltasse, como me alertara o tutor, conhecimento mais profundo sobre o que realmente era aquela fraternidade de irmãos construtores de um novo e promissor futuro da nação. Confesso que, como um jovem de uns 17 anos, a ideia de aventura era mais aprazível do que o sucesso dos intentos liberais.

Meu tutor então me presenteara com um anel ornado com um símbolo maçônico. O objeto me facilitaria a encontrar as relações a que estava destinado e seria um amuleto para me fazer lembrar do grande ideal.

É nesse ponto que minha regressão deu um salto no tempo, talvez alguns meses ou um ou dois anos no máximo.

Vi-me então em situação jamais imaginada. Estava em um front de batalha. Sujo e sem o costume da rotina rude de um soldado, aquela situação era terrivelmente penosa para mim. Meu comandante certamente nunca ouvira falar de Voltaire nem me consta que fosse realmente alfabetizado. Os planos feitos com meu tutor não se concretizaram e dava-me conta que uma nova pátria não se construiria somente com tijolos de ideais; ela, na verdade, parecia era exigir muito sangue.

Tive um pequeno acidente com meu fuzil. Não sei ao certo do que se tratou, mas perdi dois bens: um dedo anular e o anel com o qual havia sido presenteado pelo tutor. Certamente a perda do dedo me foi mais dolorosa. O anel se foi, assim como se foram todas as minhas ilusões do passado.

Sentia-me traído pelos ideais acalentados com tanta esperança e fervor pouco tempo antes. As letras, por melhor que fossem as ideias que vestissem, não faziam frente às forças mais poderosas do mundo: a solicitude pela sobrevivência e o medo do desamparo e da morte.

A colônia fora vitoriosa, surgiria o novo país, porém eu voltava eternamente vencido à propriedade de meu pai.

Meu papel na batalha fora curto, mas suficientemente marcante. Tornei-me amargo. A bebida substituiu as leituras; lamentar a própria existência substituiu às grandes aspirações; o sexo com uma das escravas tornou-se o remédio para o tédio. Assim me transformei em um jovem abjeto de uns vinte e poucos anos.

Contraí certa doença venérea que combinada ao alcoolismo me fazia às vezes enlouquecer.

Foi quando, junto de outros escravos – e a bem da verdade, na fazenda eram livres, pois faziam o que bem entendiam – comecei a participar de rituais de magia na tentativa de curar minha enfermidade. Tais práticas pareciam mais desvarios, em que o álcool e o sexo entorpeciam a mente e o corpo, prometendo a fuga de todas as dores.

Embrutecido, perdi a noção do tempo.

Uma moça, no entanto, apareceu na fazenda. Tinha sido moradora e senhorinha de propriedade vizinha. Jovem e bela, a adversidade da guerra lhe fora mais cruel. Soldados da própria colônia roubaram-lhe o mais precioso pudor. Para piorar, engravidara. Completamente desamparada e só, lembrara-se de pedir auxílio em minha casa.

Minha autocomiseração não me permitiu compaixão maior, a qual ela sem dúvida merecia. Contudo, para honrá-la, propus casar-me com ela e adotar a criança que nasceria.

Foi um bem que fiz, não porque fosse bom. De fato, era-me indiferente ao ato, mas parecia-me algo certo a fazer.

A presença da mulher um pouco mais jovem do que eu inspirou-me certo pudor. Deixei de lado os rituais e a amante escrava, mantendo meu namoro somente com as garrafas de conteúdo etílico. O álcool corroía-me a lucidez; a doença, o corpo. Vivi isolado por uns poucos anos, ainda que na companhia de minha esposa e de minha filha adotiva, embora não as tratasse como tais. A menininha era loira, bonita e implorava-me, com a presença desconcertante, o carinho paternal. Nada tinha a dar a ela.

Foi quando a morte me chegou. Talvez contasse uns 28 anos.

É a partir de agora que essa lembrança, antes de todas as lembranças da atual existência, fica mais interessante: vi-me ao lado de meu corpo morto, em cova cavada em minha ex-propriedade. Estava ligado a ele pela doença genital e ainda sentia as dores e comichões de outrora. Era um quadro aterrador de ver e de vivenciar.

O espanto jogou-me para fora de mim, para fora de minha autopiedade e deixou-me lúcido para a presença de um benfeitor que se aproximava com sua condição etérea de quem conhecia melhor aquele novo mundo insólito. Ali estava ele, meu jovem tutor, acolhendo-me como espírito que já se tornara.

Embora fosse também jovem – não teria vivido mais do que 40 anos -, era de uma lucidez invejável naquelas condições propostas pela realidade da morte. Aproximou-se de mim gentil como sempre e revelou-me, de alguma forma, em minha tela mental, qual deveria ter sido meu destino. 

Era o meu tutor, amado tutor, novamente a educar minhas energias psíquicas e a conduzir-me à luz do entendimento. Quanto eu recebera, pelas letras e filosofia, do tesouro imaterial do espírito... Fora nos repertórios políticos e filosóficos compartilhados no seio da maçonaria de então que eu bebera a mais pura essência divina, o deísmo de Voltaire, sem o dogmatismo religioso - cegueira da humanidade. 

Recebera simbolicamente a régua e o compasso, para conduzir meus passos com firmeza e convicção quando tudo me viesse a faltar. Exclamei arrependido: “Essa doutrina de luz... Essa doutrina de luz...” – enquanto desabei em pranto.

Então vi o que ocorreria se, em vez da revolta após a guerra, resignado, eu voltasse à fazenda. Lá eu chegaria, reencontraria alguns poucos escravos de outrora que se uniriam a outros perdidos do caminho, cujos donos estivessem mortos. Refletindo sobre os textos que pregavam a igualdade, fraternidade, liberdade e justiça, naquela propriedade fundaria eu uma república simbólica, alfabetizaria quem quisesse ser alfabetizado e compartilharia os ideais liberais com aqueles que escolhessem ficar. Seria uma fazenda escola, um oásis de esperança onde eu envelheceria cercado de ternura e alegria. Era um sonho possível em um lugar esquecido daqueles.

Entretanto, falhei em minha tarefa pessoal, aquela que se realiza em função do outro para atender às próprias demandas íntimas. Falhara com os outros e comigo mesmo. Os escravos estavam livres na propriedade, mas embrutecidos. Minha filha adotiva fora marcada pelo meu desinteresse e aparente desprezo. A mãe dela estava condenada a mais absoluta solidão.

“Agora você é um professor” – lembrou-me o tutor.

Ele estava comigo na sala de Heitor, sinto que tivera papel ativo na condução da regressão.

Despertei do transe psíquico.

Escrevendo 3 anos após todo esse evento, posso afirmar que depois dessa memória pregressa a fixação passou por completo.

Analisá-la como um sonho é possível, também o é como uma vestimenta simbólica para as demandas psíquicas atuais. No entanto, algumas informações da época totalmente desconhecidas – e pesquisadas a posteriori -, como vestuário, mobiliário e movimentações políticas na colônia inglesa do norte da América, são uma incógnita cuja única explicação encontro na teoria – para mim, verdade – da reencarnação.

Nada acabou na cova de outrora, nada está prestes a acabar. Tudo ruma à perfeição.