sábado, 3 de dezembro de 2016

Ensaio sobre um Pai morto

          Na boca da campa ou Ensaio sobre um Pai morto

  
            Essa história é breve e um tanto interessante.
         João Nascimento, um homem de fibra e fé, nunca logrou êxito em infundir no filho sua mesma inclinação em acreditar na metafísica da alma, na vida espiritual e na continuidade da individualidade do ser após a morte. Para todas as outras coisas, o jovem Murilo tinha ouvidos, mas não para as “superstições” que a ciência haveria, um dia, de aniquilar.
           O pai, contudo, não condenava o filho pelas ideias materialistas já de longo esposadas desde os tempos da escola. Respeitava-lhe sempre, embora lhe doesse a ideia de que Murilo, quando chegasse o fatídico dia da própria morte, talvez não estivesse preparado para fazer o passamento com dignidade e sem largo constrangimento. Ou seja, João Nascimento preocupava-se com a ausência de orientação espiritual do rapaz.
           Vendo chegar a idade avançada, saltou-lhe à mente uma excêntrica ideia. Decidiu escrever o discurso a ser lido diante de seu próprio caixão em ocasião do enterro. Determinou que Murilo, seu único filho, faria a leitura diante de amigos e parentes. O texto de despedida seria um tratado didático sobre a morte e a vida espiritual.
            O rapaz, embora não fosse afeito também a solenidades, certamente em vista da grave ocasião não se furtaria a atender aos últimos desejos do pai. Se seria uma contrariedade ler o discurso, não passaria de uns poucos minutos.
            O fato é que a morte de João, ainda que morosa, um dia chegou. Na ocasião, contava ele com 83 anos, enquanto Murilo, não mais um rapaz, alcançara uns 50.
            Velou-se o corpo.
            Pouco mais tarde, diante da campa, chegara o momento em que Murilo leria as palavras do próprio pai para o próprio pai.
Sua voz iniciou embargada, as mãos um pouco trêmulas seguravam o papel cujo conteúdo manuscrito revelava o desvelo com o qual escrevera o autor.
Murilo iniciou uma leitura pausada e cadente, sem dar-se conta de que seu pai, ainda que morto, fazia-o tomar parte em um ritual de fala direta com um ente morto.
            Analisemos:

            Entras agora tu pelo que nós daqui chamamos 'sombra da morte', porque nos é vedado conhecer teu destino. É esta sombra o nada? Não o sabemos. Assim defini-la categoricamente não nos convém, pois, pelo caminho misterioso para o qual a tumba é a porta, os nossos cinco sentidos grosseiros não nos permitem nada avaliar, a morte definitivamente não lhes diz respeito. Suponhamos, no entanto, que a metáfora 'sombra' corresponda a algo menos promissor que a escuridão, ou seja, de fato, o 'nada'; o que isso significaria para nossa jornada existencial e individual? Filósofos do passado disseram: Sendo o nada o futuro no qual acaba o tudo, que é a vida, a morte torna-se a ausência de todas as dores físicas como também das angústias, dos pesares, dos arrependimentos, das mediocridades ou genialidades do finado. Melhor fim não haveria para o injusto – a partir de seu próprio ponto de vista, é claro. Mais intenso descanso não haveria para o oprimido. Maior decepção não haveria para o curioso, como tu mesmo o foste. Se assim o é, não me ouves agora. Contudo, falo. Isso porque o nada não é uma certeza, mas somente uma possibilidade. Sendo assim, pode ser que, sem o sentido físico da audição, ainda me ouças. Suponho que me ouças...
            Falo, portanto, por acreditar que ou podes estar lúcido, ou porque as palavras em alto som a ti dirigidas podem acordar-te o espírito preso às perturbações do transe da morte. Acordas no mundo do espírito ao qual todos pertencem e ao qual voltam todas as noites, durante o sono emancipador. O véu de Isis agora descerra-se para ti e convida-te para nova jornada. E, por estas palavras, tu mesmo te diriges a ti, tua palavra que ficou escrita neste mundo visita-te no mundo que tu neste momento divisas. Elas te perguntam: “Existe Deus? Ele é bom? Há razão na vida? Há algo que valha nos sofrimentos? Há o Juízo, a roda das encarnações? ou tudo na existência é degredo, separação, tristeza e morte?”
            Fizeste da vida o que podias, deste a tua esposa tua fidelidade, lealdade e a chave de teu íntimo universo – melhor não poderias ter feito. Recebeste dela valor igual, em melhor moeda, porque sentir-se amado por quem se ama é tesouro raro no mundo em que habitaste – melhor não poderias ter recebido. Ela atravessou essa porta antes de ti. Estão juntos agora? Ela te busca? Ouve ela também estas palavras? Tu gostarias de acreditar no sim para as três recentes perguntas. E agora tu sabes...
            Teu filho único certamente tem queixas contra ti; qual filho compreende completamente o próprio pai? Foste bom para ele. Foste provedor, disciplinador. Deste-lhe também o amor e o afeto de pai. Consentiste que ele fosse o autor da própria via, sem negar-lhe o amparo necessário. A modéstia não te impedes, contudo, de confessar-te como bom pai. Entretanto, não conseguiste soprar-lhe pelas narinas a grande crença que te animou desde os primevos tempos da juventude; ele, qual Tomé, pediu provas. Tu não foste capaz de dá-las. Fizeste de ti mesmo, desse modo, o pai excêntrico, crédulo, paradoxalmente culto nas letras e infantil na crença. Isto aos olhos de teu filho. Mas tu o amaste e o amas de todo o teu coração. Não deixaste que o tempo de dizer-lhe se perdesse. Dá-te agora por feliz em tê-lo feito. Se tudo é como crês, nesta hora tu o comtemplas, olha-o a segurar teu testamento de fé, escrito outrora na solidão de teu quarto, e daí acenas-lhe e sorri, com o maior amor do mundo, afirmando, no inaudível invisível: “Estou certo, filho.  A morte não existe!”
            Ouve-lhe a voz a repetir as palavras que escreveste para esta ocasião. Logo ele, tão avesso a solenidades e à segunda pessoa do discurso.
            Sobre tua lápide será escrito: “Creio na felicidade, no Amor. Vivo. A cova é pequena demais para meus sonhos...”
           O epitáfio acompanhará as duas datas que marcam tua jornada terrena. Dois pontos perdidos no espaço infinito do tempo. De que te importa, tu não habitarás esse lúgubre cômodo!
           O melhor de tuas obras foi o que construíste no coração dos teus.
        Deus foi bom contigo, permitiu que escreveste estas linhas com tudo o que tanto acreditas. Descansa agora. Os teus do passado estão contigo. Descansa... Adeus!
            Tu olhas teu filho e sabes que tens dele tanto amor. Descansa...

            Não há dúvida de que Murilo ficou profundamente tocado. Comoveu-se, verteu lágrimas ao longo e ao fim da leitura. Desejou de todo o coração que tudo que ali estava fosse verdade, mas não se acreditava capaz de crer, não havia sido talhado para aquilo. Por fim, quando todos se foram e só  restou ele diante do recém-fechado túmulo, sentiu ouvir no silêncio do cemitério o mais eloquente discurso que a natureza sempre faz sobre a morte. Portanto, ele não ouviu absolutamente nada – porque o silêncio é nada para quem busca respostas precisas.
Foi assim que sentiu a dor da mais profunda ausência, da mais terrível saudade. Prostrado, sem força que o consolasse, viu-se em desamparo: Como seu pai poderia com tamanho otimismo atravessar umbral tão misterioso?

Pobre Murilo, que não se agarrava a superstições... 




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