sábado, 3 de dezembro de 2016

Os três espíritos do Natal versão rock and roll


"Life is not rock and roll" - essa é uma ideia síntese de um daqueles poemas muito loucos do Paulo Leminski. O pensamento se complementa quando ele afirma que apesar de a vida ser o que é, ele gosta dela. Penso que, certamente, é porque, entre tantas coisas, a vida pode oferecer também o rock and roll.

Nesta última semana, foi isso que a vida me fez. Ela me ofereceu três harmonias distintas - no sentido musical da palavra -  cheias de improvisação e melancolia, parece que nascidas de uma mesma fonte, apesar de terem autores diferentes. Foram três solos de guitarra daqueles arrebatadores, dignos de uma Woodstock.

A primeira foi assim. Bem aquela situação de finalzinho de ano. Senhorita B., aluna de uns 16 anos, me apareceu com um livro do Leminski. Ela me disse que se trata de um autor curitibano de quem ela gosta muito. Uma fita azul prendia a capa com um lacinho, o que conferia ao objeto um ar solene de presente. Entre a capa e a folha de rosto, uma dedicatória. E a dedicatória valia mais que todos os presentes que ela pudesse me dar. Ela falou sobre algumas aulas de quase dois anos antes em que estudamos textos poéticos e afins. Escreveu sobre como isso fora importante para ela. Escreveu sobre a importância da palavra. Ora, isso não se faz com um professor que vive de palavras; isso é botar um professor comovido até as tampas. E foi isso que ela fez.

Abri o livro aleatoriamente, lá estava o poema "it´s only life / but i like it". Esse foi o primeiro solo de rock tirando a monotonia da vida e dos automatismos de final de ano.

A segunda teve algo de semelhante. Um aluno de uns 18 anos, Sr. A., me apareceu com uma maleta de utensílios de churrasco, coisa belíssima de se ver. Sem dúvida um belo presente. Junto, uma carta. Nela ele me agradeceu por ter fé nele. Esqueça a maleta. Uma carta de um aluno de 18 com esse conteúdo? Isso bota uma pessoa comovida como os diabos; isso faz a gente ter vergonha de reclamar da profissão; isso dá uma esperança para seguir por um caminho bem árduo que é lidar com gente...

Ele saiu da sala, eu li a carta, e as lágrimas vieram. Não sei se é a idade, se é a terapia, se são os sinos de natal - ou a combinação disso tudo -, mas agora mesmo elas voltaram só de lembrar.

Por fim, a última foi praticamente uma opera-rock, triste, arrebatadora e que eu sei exatamente como é. A protagonista foi a Senhorita H., ela tem uns 17. Disse que gostaria de manter contato comigo, pois eu a ouvia mais que seu pai. Abre aspas: podem ter certeza, se eu conversei mais do que uma hora com ela durante o ano foi muito - fecha aspas. 

Isso calou fundo na alma. Como não se comover? 

O pior de tudo - ou melhor -, não sei ao certo, é que relatar esses fatos me fez lembrar de episódios de meu passado nos quais quem estava do outro lado era eu. E isso é bem rock and roll mesmo, porque os temas de rock variam pouquíssimo, mas é possível, por exemplo, se empolgar com cinco a dez músicas que falam de amor, como se cada uma fosse profundamente original.

Pois é... 

Então aí vão dois relatos breves do passado:

Quando eu estava na 5ª série, atual 6º ano, e era um daqueles caras invisíveis, um professor de redação corrigiu e comentou publicamente um dos meus textos. Aquilo foi tão importante para mim que, no final daquele ano, eu levei um presente para ele, um livro de poemas. O Sr. A. não fazia ideia de como aquilo me fez acreditar que eu podia ser bom em alguma coisa.

Anos depois, após eu largar o segundo curso de faculdade e ter praticamente desistido de estudar, encontrei um antigo professor de matemática - que parecia gostar mais de música e de teatro. Ele fez elogios a mim e disse que eu poderia fazer faculdade de Letras, porque meus textos eram bons e eu precisava escrever. O Sr. F. demonstrou ter fé em mim, e a opinião dele tinha um peso imenso para aquele cara de uns 19 - 20 anos que eu era. Certamente conversei com ele muito mais do que o fiz com meu próprio pai.

A vida tem uns refrões loucos mesmo. Em época de natal, em meio a tantas melodias clichê, ela vem com o mais puro rock and roll e abala cada fibra da alma, sem dó!
It´s only life, but I like it.




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