A vida tem que ser suave naquilo dela que só depende de nós. Isso porque, acredito, ela desde o início é marcada por perturbações, que vão da gestação até seus derradeiros momentos. São situações que surgem à nossa revelia, de modo doloroso até, que vão deixando marcas e, frequentemente, cicatrizes. Esses contratempos inevitáveis acabam por refletir em nosso modo de ser, pensar e reagir diante das demandas do mundo, e raras vezes percebemos o quão profundamente afetam nossas decisões.
Recentemente descobri que é importante olhar mais detidamente as marcas e cicatrizes que me foram moldando, sobretudo na infância e em meus primeiros 20 anos de vida. Esse processo é como mergulhar com um escafandro em si mesmo, indo às regiões mais profundas da alma. Creio que seja uma expedição possível de se fazer sozinho, contudo não muito recomendável. A minha, eu mesmo não conseguiria.
É nesse momento que entra em cena uma pessoa especial, que lá de cima do barco está apta tanto a manter em segurança a embarcação quanto a controlar o oxigênio. É alguém mais afeito a expedições, embora não possa fazer por ninguém a viagem que só cabe a cada um fazer. Conhece especialmente aquilo que as profundezas humanas podem ter em comum e, por esse motivo, pelo rádio vai nos auxiliando a reconhecer as ocultas paisagens marinhas. "O que você está vendo? Como é isso? O que você está sentindo?"
Quando se trata de um bom profissional, um verdadeiro orientador de escafandristas, por mais que entenda sobre o fundo do mar, o indivíduo do leme do barco não antecipa as descobertas ao explorador, pois sabe que a descoberta, a epifania, é o que confere o verdadeiro significado à expedição. Ele possui plena ciência de que a viagem a si mesmo só permite um protagonista.
O orientador também respeita os limites do mergulhador. Sabe que as paisagens marinhas não raramente são inóspitas, embaraçosas, turvas e confusas, e que só o exercício do escafandrista nas contínuas expedições é que pode prepará-lo para as verdadeiras revelações do fundo do mar.
Às vezes, até com certa frequência, após um mergulho voltamos sem fôlego, esgotados, mortificados com a visão de algo inusitado, que nos inspira medo ou insegurança. Ora, o fundo dos oceanos esconde abismos onde reina a escuridão, onde há predadores camuflados e onde o pequeno alcance da visão nos obriga a nos aproximarmos a todo instante do desconhecido, ainda que este nos pareça incrivelmente familiar.
Há alguns meses tenho feito semanalmente certas expedições, das quais dificilmente não volto estupefato. Frequentemente volto sem ar, meio aturdido. Por causa das profundezas que lentamente tenho alcançado, geralmente preciso de um tempo para fazer a descompressão. Devo, no entanto, ressaltar que o mal-estar em nada tem a ver com a imperícia de meu orientador. Inclusive, ele me alertou que esses sintomas são parte do processo. Seria masoquismo então?
Aparentemente sim, não fosse o fato de que quando volto a terra firme e para os afazeres até banais e demandas da vida na superfície, posso contar com ganhos como melhor capacidade pulmonar, habilidade para distinguir perigos reais de imaginários e entendimento sobre os limites que, por prudência, devem ser respeitados. Além disso, contemplar a beleza do oceano nos sensibiliza para encantarmo-nos também com o que se mostra de mais simples no universo das faces superiores, ou seja, da superfície.
Outro ganho diz respeito à relação com os habitantes das ilhas e do continente. Em alguns casos, ao interagirmos com eles, conseguimos, ainda que de modo muito breve, perceber aquilo de mais simples, porém de extrema relevância, que lhes caberia explorar em uma viagem com escafandro. Esse fato nos torna mais empáticos, mais solidários até, e conseguimos nos perceber como uma grande família humana.
Assim, quando nos tornamos escafandristas, vamos sentindo, aos poucos, que a vida pode ser vivida de modo mais suave, vamos pegando gosto por caminhar pela orla e sentir a areia tocando a planta dos pés. Deixamos sem medo a brisa tocar nosso corpo, o sol iluminar e aquecer nosso rosto, e passamos a ouvir com mais clareza a cadente melodia do mar.
Contudo, um alerta precisa ser feito: quando se decide fazer o mergulho, nem todo orientador escafandrista está apto a conduzir a embarcação e regular o oxigênio, tampouco a orientar pelo rádio. Às vezes é preciso procurar, até mesmo experimentar alguns mergulhos até acharmos a pessoa certa. Mas quando esse momento chega, pode ter certeza, vale a pena.
Se posso dizer algo sobre a minha experiência, talvez entre as viagens próprias à vida, essa, apesar de voluntária, é sem dúvida a maior aventura de todas e a mais necessária. Molhar-se nas águas do oceano interior é como deixar-se batizar pelo que há de mais sagrado na existência humana, é contemplar-se aos poucos, desfazendo as ilusões sobre si, sobre os outros e sobre a vida; mas, é também, por outro lado, tornar-se apto para encantar-se consigo mesmo, com os outros e com a vida.
No entanto, não quero iludir ninguém, para cada mergulho que se quer verdadeiro, é preciso coragem. Sem ela não procuramos o orientador de escafandristas, não subimos ao barco, não nos afastamos da segurança das margens nem tampouco nos lançamos no grande mergulho que tocará sensivelmente a nossa realidade, de um modo para o qual certamente não haverá volta.
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