Aika – A canção do amor de uma ilustre desconhecida
A história a seguir deveria ser diferente, contudo os fatos impuseram a realidade com tal força que negá-la aqui, embora seja um tanto dolorosa, seria mais do que simplesmente faltar com a verdade, seria ferir ainda mais um amigo.
Aqueles que já tiveram bichinhos estimados sabem e até preveem a dor da perda de seus amados amigos e “filhos”. Isso porque cães e gatos vivem poucos anos se comparados aos homens. Gigi, por exemplo, segundo nossas últimas contas, apesar de seu eterno flerte com a infância, tendo quase seis anos, conta biologicamente com aproximadamente 27. É sensato, portanto, pensar que um dia sofreremos com sua “grande ausência”, pois esse talvez seja um dos aspectos mais cruéis da morte. Por esse motivo, nunca revelamos a ela a lógica canina de progressão do tempo, deixando que o instinto sábio que a natureza inspira em seus seres um dia lhe apresente placidamente suas intenções para com nossa filha. Que sua velhice – precoce, se comparada a nossa – vá lhe roubando pouco a pouco o viço e as vontades, ao mesmo tempo que infundi-lhe a sabedoria e dignidade próprios da experiência - que conta, por meio do silêncio, os segredos da vida, intuindo sobre os planos do destino e a razão de ser da dor. Mas, para que seja assim, nenhuma doença ou incidente poderia apressar esse processo da vida que a faz desaguar no seu contrário.
Meses atrás, o pai da Ciça – que é pai também de Diva, cadelinha linda e lépida – sofria com um desses azares, pois sua pobre “filha”, vitimada por um vil carrapato, sofria envenenada por uma doença que lhe exigira as úlimas forças sanguíneas, bem como a de outros cães - devido às transfusões pelas quais passou. O abatimento do amigo e sua prostração diante da situação marcavam-lhe a postura e o olhar acentuadamente, preparando-o para o fim, ao seu ver, inevitável: o corpo inerte de Diva, que não mais lhe receberia aos latidos, nem o lamberia na face, tampouco disputaria entre ele e a esposa o espaço da cama na hora de dormir de cada dia.
Em casa, Gigi, minha esposa e eu acompanhávamos os tristes capítulos de seu drama, porém sem perder a fé numa possível reação positiva do organismo de Diva. Cada um, a seu modo, orava pelo reestabelecimento da pobrezinha, até que, unidas as duas famílias, num fim de tarde, oramos fervorosamente em seu favor. Diva, coitadinha, estava internada, portanto longe de nosso olhar e do carinho de seus “pais”, que pareciam buscar já na resignação diante do pior o seu consolo. Mas qual foi o resultado de toda essa mobilização?
Não houve milagres, mas uma feliz ideia. A “mãe” de Diva teve uma benéfica inspiração, a qual os levou, num último fôlego de esperança, a trocar Diva de veterinário. Hoje, a cadelinha é exatamente a mesma e fazemos votos que assim continue ainda por longos anos. Ou seja, final mais que feliz.
Contudo, diante dessa nossa narrativa, que em verdade mal começou, precisamos fazer algumas observações. Alguns que tiveram paciência de nos ler até este ponto podem olhar com desdém nossa reação diante da doença de um “simples cão”, bem como considerar uma extravagância as ações e fervor de intenções em favor da cadelinha Diva, acusando-nos de “sentimentalóides” e de haver deturpado o nobre significado do amor. Porém, em nossa defesa, fazemos duas colocações. A primeira é que devotar amor aos animais não significa devotar menos amor aos seres humanos, às crianças, aos pobres e desvalidos; a segunda é, antes de julgar, procure escolher um animal que o inspire, por sua aparência, comportamento, olhar – não importa -, adote-o. De então, dê-lhe um nome, acompanhe-o de perto, alimente-o, cumprimente-o todos os dias, faça-lhe afagos, brinque com ele e perceba que ele não guarda mágoas, não faz acusações e retribui todo afeto que recebe. Compartilhe sua existência com ele durante alguns anos e, por fim, volte a reler estas linhas, pois certamente haverá de fazer pelo menos algumas concessões a algumas das ideias aqui contidas e poderá não só entender o teor do que foi escrito, mas se comover com o que vem a seguir.
Pois bem, chegamos então ao ponto em que a história deveria ser outra...
Aqui entram mais dois personagens: Aika e seu “pai”.
O pai da cadelinha Aika trabalhava comigo e com o pai de Diva. Durante alguns dias, tornara-se visível seu abatimento, o que viemos a saber era motivado pelo adoecimento da pequenina. Talvez quem no serviço ouvisse sobre a causa do sofrimento dele, de imediato o entendesse exagerado, não sei... Contudo, as afinidades de gostos, interesses e experiências, reúnem naturalmente sujeitos e coadjuvantes de uma mesma história. Tanto eu quanto o pai de Diva começamos a acompanhar o caso. Aika contraíra perigosa doença, mas não necessariamente fatal – algo até certo ponto confortador. Nós, espectadores, portanto menos nos comovíamos, esperaçosos por ouvir, nas semanas seguintes, boas e auspiciosas novas.
De minha parte, trazia para Gigi a notícia de que mais um amigo de seu pai tinha também uma “filha”, assim como ela, chamada também por ele de “filha” – algo que muito a encheu de júbilo e interesse por essa tal de Aika. Como eu vira uma foto dela, descrevia-lhe como uma cadelinha de feição simpática, coberta faustosamente de pelos claros e lisos, sendo bem menor do que Gigi, notícia que para minha filha era sempre agradável – fato que atribuo ao instinto canino. Eu mesmo planejava escrever-lhe um nova história contando com o protagonismo de Aika, seria uma crônica descontraída e de ânimo suave, prosaico.
Minha filha fazia mais perguntas sobre ela entre um ossinho e outro, contudo pouco podia responder-lhe, apesar de prometer-lhe trazer mais informações. Entretando, os dias que se seguiram não foram dos mais promissores para a cadelinha e, por esse motivo, poupava o amigo de ouvir as perguntas cujas respostas interessariam a Gigi, só vindo a saber que Aika estava na flor da idade. Uma sombra de angústia e infortúnio acompanhavam seu pai, que inclusive faltara algumas vezes ao serviço a fim de dedicar-lhe tempo, carinho e todos os esforços para sua recuperação. Em vão? Não sei ao certo dizer.
O fato é que, em uma manhã de novembro, Aika mostrou-se para mim toda em essência pouco tempo depois de eu chegar ao serviço. Ela não latia, não abanava o rabo, não era o que costumeiramente se espera de um cãozinho. Seu pai, sentado na grande sala, de olhar alheio, talvez a visse na tela da memória – com toda certeza portava notícias nada boas. Aika não passeava pela sala, não estava aos seus pés ou sobre o seu colo a receber carinhos. Aika era uma suave canção de melancolia e saudade. O amigo mostrava-me o braço com uma recente cicatriz de tatuagem, fazendo-me saber que o nome da pequena eram na verdade duas palavras japonesas Ai – Ka, lidas para nós como Canção de Amor. Ela estava bem ali, presa ao braço como sinal e bem atada a toda a alma dele como a canção em que se transformara. Como aquela canção profunda que se ouve no silêncio da saudade, que não pode ser reproduzida, nem cantada, nem traduzida, nem sonhada, mas que nas palpitações do coração surge senhora e, vez ou outra, à revelia de seu dono, volta a tocar. Aika estava todinha ali, não havia dúvidas.
Final de novembro de 2012.
Nenhum comentário:
Postar um comentário