A Revelação
Ontem estava aflito, como contar a ela, será que entenderia? Depois de muitos volteios, entendi que a verdade pode ser um remédio amargo, e a omissão, um doce veneno; e, neste caso, mais importante do que os adjetivos são as substâncias: optei pela verdade.
Aguardei então momento propício, quando estivéssemos somente nós, seus familiares mais próximos. Depois dos gestos prosaicos, próprios de quem retorna a casa após um dia de trabalho, quando, enfim, na sala, éramos os três: minha esposa, eu e Gigi -, elegi aquele como o instante definitivo, que certamente transformaria a realidade do cotidiano familiar.
Enquanto minha esposa, sentada, observava-nos, ajoelhei-me diante de Gigi, olhei bem dentro de seus olhos cor de caramelo e a chamei para que se aproximasse de mim. Pressentindo o ar grave e solene que passou a pairar no ambiente, resignou o movimento de abano do rabo, que outrora conferia-lhe um aspecto despreocupado e alegre e, quase submissa, depois de bem uns dois passos à frente, inclinando a cabeça em minha direção, mais detidamente passou a olhar-me atenta, completamente receptiva ao que eu tinha a lhe dizer.
Rompendo o silêncio, comecei: __ Filha, você bem sabe como nós a amamos e nos esforçamos todo o tempo para lhe proporcionar desde o conforto material até o aconchego de nossos carinhos e palavras...
E assim, inexperiente na arte de conferir corpo a notícias delicadas, dei curso a uma explicação que chegou a beirar o tédio e a pieguice, até que, enfim, arrematei com a revelação: __ Filhota, você, além de vira-lata, é adotada - fora lançada a bomba!
Examinei-lhe as reações, supondo que talvez o choque da notícia houvesse colocado momentaneamente em suspenso o turbilhão de sentimentos que certamente tomaria conta de sua natureza instintiva e, na tentativa de amenizar-lhe a dor, dei-lhe um abraço.
Confesso que esperava ouvir alguns uivos, latidos talvez, mas ela, surpreendentemente, respeitando sua dignidade e simplicidade caninas, ao perceber que o gesto afetuoso punha termo à conversa, voltou a abanar o rabinho, colocando ligeira suas duas patas sobre meu colo, como a pedir um biscoitinho. Não lhe neguei o agrado... Olhei para Juliana - a mãe - sim, porque não existe "madrastidade" – ela sorria aliviada.
Você, meu caro confessor, deve estar imaginando que obviamente Gigi não entendeu palavra sequer do que lhe foi revelado. Mas o fato é que esta história não acaba aqui.
Hoje, pela manhã, enquanto ainda estava entorpecido pelo lusco-fusco do clarão que entrava pela janela do quarto roubando-me algumas horas de sono, eis que flagro Gigi bem ao meu lado, de olhos bem abertos, como a fitar-me, ansiosa para dizer-me algo. E disse!
Examinemo-lhe as palavras, pois creio que nos servirão de grande instrução quanto ao entendimento da psique canina.
_ Papai, apesar de agirmos de forma muito parecida, faz tempo que reparei que o seu focinho e o da mamãe não têm nada a ver com o meu.
Percebi que ela não queria conversar; para ela, o importante era somente fazer-me saber que, a despeito de qualquer coisa que lhe falassem, ela nunca deixaria de confiar primeiro em sua capacidade de observação; e, em nosso caso específico, ela já tinha percebido que o amor era o mais importante, afinal mostrara-se segura disso.
Retomei o sono, mas com a sensação de que algo havia se transformado em mim - e havia.
Um dia de junho, 2012.
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