segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Gigi e Ceci: um encontro delicado

Gigi e Ceci: um encontro delicado


Um pai não deve enganar-se nem iludir-se quanto a seus filhos, mas, frequentemente, engana-se e ilude-se. Porque ser pai ou mãe é enxergar pelos olhos cegos do Amor, que esconde a verdade aos genitores, a fim de que, enganados, façam o que deve ser feito – zelar pelos filhos e pelas ações deles. Entretanto, esta assertiva vale apenas para os pais cegos pela tentativa de enxergar a verdade, não aos iludidos com as mentiras que contam para si, reforçando-as, ao colorir e retocar com minúcias de artista as descrições quanto à personalidade e ações de seus rebentos, principalmente nas conversas fortuitas que têm com os demais. É urgente! - precisamos aceitar a realidade, filhos e pais são, antes de filhos e pais, seres humanos. Em meu caso, no entanto, tenho de aceitar: minha filha, embora seja dona de meu amor, é um cão – e se não digo cadela, é por conta de meu pudor de pai.
Até onde a mãe dela e eu sabemos, Gigi tem um histórico de violência – certo dia ela mordeu uma garotinha. Não vou reavivar os já adormecidos fatos em respeito à minha cadelinha amada (mais uma vez meu pudor paterno vai contornando a palavra), pois, um dia, quem sabe, ela poderá ler esta crônica ou ouvi-la de minha própria voz antes do sono noturno, o mais longo e cheio das vivas imagens da memória e dos sonhos. Não quero que ela sofra com a recordação de uma versão de um fato sobre o qual somente ela sabe a verdade. Mas, não posso negar que quando, aos quatro anos de idade, aquela cadelinha branca de manchas caramelo chegou a nossa casa, seus precedentes não eram dos melhores, suas atitudes também não sugeriam os melhores prognósticos. Arredia ao contato com a presença masculina, eram um espetáculo seus latidos e agito intenso, um ser quase indomável, dócil ao afago feminino e, paradoxalmente, um monstro feroz ao menor gesto de aproximação de se futuro pai. Diante de cena tão inusitada para mim, lembro-me de ter me perguntado: valeria a pena aceitar a paternidade diante de tão hostis circunstâncias? Hoje sei que valeu.
Apesar de feitas todas essas considerações, devo alertar-lhe, contudo, que, até este ponto, não entramos ainda no episódio que quer tratar esta crônica, porque esses dois anteriores e recheados parágrafos foram feitos para justificar o que vem adiante: o zelo de pai a que me referi logo no início, o qual, em breve, poderá ser apreciado em sua manifestação mais concreta.  É, portanto, a partir daqui que começa esta história.
Em casa, raramente recebemos visitas de amigos ou parentes, pois, após nossa mudança, quilômetros e mais quilômetros de distância transformaram-se em uma barreira para o contato mais ostensivo com as pessoas com quem sempre compartilhamos nossa intimidade. Sem conhecidos ao redor, a solidão é sempre a primeira visita que arromba a porta da frente de casa tão logo saímos. E foi exatamente o que ocorreu conosco. Ao voltarmos ao lar, sem que percebêssemos, esse sentimento esgueirou-se sorrateiramente sobre nosso colo, abraçando-nos e encostando sua cabeça junto a nosso peito, de modo a cobrir as frestas de nosso coração, para que não entrasse a luz de nenhum outro sentimento. Mas o conselho do Tempo sempre apresenta alguma alternativa, principalmente quando ajudado pelo Destino. Foi o que aconteceu. Passados poucos meses, a afinidade apresentou-nos uma família que, como nós, era estrangeira na própria pátria. Pai, mãe, filha e Diva, uma cadelinha menor que a Gigi, mas com energia muito parecida – a energia infinita das crianças, sempre dispostas a brincar e a resistir ao convite enérgico do sono. Logo um cachorro-quente caseiro selou o começo dessa amizade imigrante, na casa deles. Prazer que Gigi não pode ter.
Certamente Gigi passou a nutrir uma expectativa canina de conhecer os novos amigos, pois não ignorávamos que ela ouvia nossas conversas sobre eles, demonstrando nosso desejo de trazê-los um dia a nossa casa, não somente a fim de retribuir-lhes a refeição de outrora, mas também para estreitar mais ainda nossos laços de amizade. Contudo, sem que ela ouvisse, frequentemente eu comentava sobre meu receio em relação a uma possível reação negativa dela, no que dizia respeito à pequena Ceci, a filha do casal, a qual não contava com muito mais do que um ano. Ou seja, criaturinha delicada, com os passinhos vacilantes de quem ainda literalmente dá os primeiros passos na vida. E quem bem conhece o universo da primeira era da existência, sabe o quanto os anjos da guarda devem trabalhar para proteger esses serzinhos destemidos e curiosos, que chegam ao ponto de, por exemplo, aproximarem-se da boca de um cachorro desconhecido, tocando-o até com certa alegria, num misto de receio e ansiedade. Ceci, sem dúvidas, é dotada deste espírito, que a mim só parece transcender a infância à fase adulta naquelas almas raras que têm vocação para ser astronauta.
Em conversa sincera com o pai da menina, procurei deixá-lo a par do histórico de violência da minha cadelinha, pois, ao meu ver, com toda certeza ele seria o alvo principal do ímpeto doloso, embora irracional, de Gigi, enquanto a filha, justamente à merce do próprio impulso de cosmonauta, seria transformada em uma potencial vítima de minha amada filhinha. Eu já presenciara o modo como Gigi reagira diante de homens desconhecidos, quantas vezes não testemunhara sua violência irrefletida. Além disso, tinha informações fidedignas quanto a uma pregressa agressão a uma menininha um pouco mais velha do que Ceci. Ah, se Gigi fosse como Diva, aberta à conversação com desconhecidos?
Seria eu injusto ou realista ao fazer essa reflexão?
Ao expor minhas observações ao amigo, examinava-lhe as reações, procurando em suas expressões vestígios de possíveis receios quanto a um primeiro contato com a ferocidade de Gigi. Ele não deveria temer por si, obviamente, porém, dificilmente um dano a sua filha, por menor que fosse, não poderia transformar-se num acidente diplomático sério, que nos levasse a reforçar as fronteiras simbólicas de uma relação amistosa ainda não consolidada. Ele, entretanto, parecia impassível, quase neutro.  Mas, como conheço as armadilhas que a aparente neutralidade pode esconder - como o mato alto capaz de esconder um penhasco a menos de um metro de distância – continuei, em minhas conjeturas, fazendo ressalvas acerca da visita deles a nossa casa, pois ao mesmo tempo que temia, gostaria de deixar minha filha livre pela casa se eles viessem a conhecê-la.
 O fato é que o Tempo se encarrega de tecer suas tramas, deixando ocultas suas melhores ou piores surpresas – isso eu nunca ignorara -, porém que ele estendia suas ações também sobre os destinos caninos – cães tinham destino? – isso para mim foi novidade.
 Chegara, enfim, o dia da visita, ainda que de improviso, e com uma proporção desigual e até injusta. Para os três, a novidade seria uma; para Gigi, a novidade seriam três. Três intrusos, chegando assim sem aviso no início de uma noite de domingo? Que efeito avassalador esse fato teria sobre as emoções de minha filha?
A parede exterior de nossa casa acendeu-se com o reflexo da luz de faróis. Os ouvidos da cadelinha, aguçados, certamente mostravam a ela mais do que se lhe permitia à visão, ofuscada por tanto brilho - dois carros, voz de papai, voz de mamãe, vozes, vozes, carro entrando na garagem, papai falando do lado de fora, o carro não é de papai, o que está havendo? - luz, luz, luz! 
Os latidos começavam, até quando iam durar?
E iam saindo do carro os três. Ceci, na verdade, não saía, pois saíam com ela, que vinha no colo da mãe, enquanto os latidos e a agitação de Gigi anunciavam a recepção, cujo desfecho ainda era desconhecido.
Abrimos a porta. Antes dos latidos ela já se colava a nós e a eles, e ao pai, que não era o dela, e o cheirava, ao mesmo tempo que latia, e eu já adivinhava tudo... 
Contudo, adivinhação nunca foi o meu forte, e, para nosso espanto, talvez ela só estivesse dando boas-vindas, pois seu calar, depois de um instante, foi repentino diante do homem. Talvez porque percebesse que ele era também pai de uma menina, assim como seu próprio pai, ou talvez porque, mais interessante do que um homem desconhecido que a olhava condescendente, lá havia uma menina desconhecida, que momentos depois, quase sem receio, foi levada pela mãe a fazer um pouso bem diante dela, uma cadelinha branco-caramelo – que era o que ela se tornava nos dias de banho.
Para mim, entretanto, foi um momento tenso o do trajeto do pouso – todos aqueles receios em minha cabeça, prenúncio de tragédia. Mas bastou que os pezinhos tocassem o chão, e Gigi revelou-nos um outro universo todo seu, até então desconhecido, que era como uma rajada perfumada de vento a anunciar que próximo a nós estava um campo florido – e o campo florido era todo o coraçãozinho de Gigi.
Porém, qual era a curva de vale que nos permitia ver aquela paisagem íntima de um cão? 
Não sabemos, talvez fora seu instinto materno ou o anjo da guarda do qual tratamos há pouco, ou a aura da garotinha que, por ser uma criatura delicada de olhar firme, inspirava reverência - como é próprio ao espírito destemido de grandes almas que irradiam suas virtudes. E, como a comprovar aquilo que afirmamos sobre sua personalidade, nimbada também de inocência, a pequena Ceci punha-se em direção ao “Lobo de Gúbio”, como fizera um dia Francisco de Assis. Estendia-lhe a mãozinha de menina, e, assim como na história do santo italiano, diante dela Gigi mostrou uma docilidade e submissão impressionantes, completamente inéditas até aquele dia.
Gigi, por pouco, não passava em tamanho Ceci, mas curvara-se toda, procurando, com extrema delicadeza, tocar a própria cabeça na palma da mão da menininha, que sorria. Quem fitasse Ceci nos olhos jamais encontraria nela o orgulho dos subjugadores que impõem suas vontades pelo argumento da força, tampouco a vaidade que desconhece a razão do feito e que, no entanto, gaba-se dele como se tivesse algum mérito. Não, ali só havia candura e graça, e inocência, e sereno destemor.
A mãe de Ceci orgulhava-se da filha – e que mãe faria diferente? Atribuía o fato à marcante e forte personalidade da menina. Mas, com todo respeito a ela e à verdade da qual são donas todas as mães quando o assunto são os filhos, fico com a minha versão: ali encontraram-se, numa comunhão, dois coraçõezinhos cheios de amor e com o espírito livre dos temores do mundo dos adultos.
O passado feroz de minha filha súbito esmaeceu-se em minhas recordações, dando lugar a uma nova verdade: sim, há um campo florido nessa cachorrinha, e talvez os que sejam capazes de visitá-lo ainda não falam, não temem e vivem como num sonho, livres das preocupações cotidianas; são crianças como a Ceci, que também possuem seus campos e vales, cheios de flores, música, sol e paz.



Um dia de julho, 2012.

Nenhum comentário:

Postar um comentário