Gigi e o latido humano: propriedades humanas e caninas
__ É meu, meu, meu, meu!! __ É meu, meu, só meu!! – e os
latidos de Gigi repetiam-se indômitos, rentes ao portão, declarando o velho
sentimento que os homens traduziram como o “direito à propriedade”. Por meio da
força do latido, do rosnado, do olhar agressivo e do corpo que febrilmente se
lançava contra o portão, ela expunha a um gato vadio, que estava no meio da
rua, sua autoridade sobre o território de nosso quintal. O felino, cínico, por
sua vez, não perdia tempo para retrucar; em verdade, olhava-a superior e com
indiferença disfarçada, pois, para ele, bicho do mundo, muros, portões, cercas
e latidos foram feitos para tirar o tédio da vida. Ficava lá, diante de Gigi,
parado, rindo todo por dentro, enquanto minha filha esperneava ensandecida por
um direito – que era extensão do nosso.
Seria hipocrisia ironizá-la ou achá-la inocente por seu
comportamento exagerado diante de um perigo inexistente, porque, a seu modo,
ela fazia o que a maioria de nós faz, porém
com o disfarce da civilidade. Erguemos muros; colocamos portões e
portas, com trancas e cadeados; instalamos alarmes, cercas elétricas e
“porteiros eletrônicos”; chegando ao ponto, em certos casos, de acompanharmos o
mercado dos produtos de segurança residencial, como um verdadeiro fetiche pelo
silencioso “latido” tecnológico. Isso para não citar os próprios cães,
comprados para somar aos rosnares artificiais os seu próprios, que têm os
timbres originais, acrescidos do aspecto da irracionalidade e da truculência
animal. Nós mesmos, ao mudarmos para essa casa, nos preocupamos em colocar
cadeados nas janelas, no portão e a contratarmos, quase que imediatamente,
alguém que consertasse a cerca elétrica de “nossa” casa recém-alugada.
Mas tanto latido cansa, e, por esse motivo, repreendi
Gigi: chamei-a para dentro e dei-lhe um pito. Expliquei a ela que sua reação
exagerada a tornaria motivo de chacota entre gatos vagabundos como aquele, os
quais, nos banquetes à meia-luz noturna, haveriam de contar a façanha de
desafiar cães, que, a exemplo dela, tinham toda a força de ação restrita por
sólidos portões. Tentei explicar-lhe que há momentos de latir algumas vezes,
outros, inclusive, ininterruptamente, com rosnados, e ainda outros
periodicamente, mas sem ênfase. A coitadinha não entendeu nada... Deu-me dois
latidos apenas - tão ininteligíveis a mim como acredito que minhas explicações
o foram para ela. Por certo, ironizou-me – coisa não muito comum entre os cães,
a não ser entre aqueles que vivem mais com os humanos. Deixou-me sozinho na
sala e voltou ao quintal. Debruçou-se sobre as patas dianteiras, inclinando sua
cabeça em direção ao portão. O gato já fora embora.
Sentei-me no sofá. Refleti então a respeito de nossa
casa. A casa também não era toda de Gigi, o sofá, as camas e o quarto eram
vedados a ela, assim como o quintal. Em outros momentos, só o quintal era dela,
e quando Gigi queria transgredir as regras, quem latia pela posse era eu.
“Mundo estranho” – pensei.
A crença na propriedade é algo impressionante, talvez até
nasça com a gente, ou vamos aprendendo a latir em louvação a ela desde
pequenos. Embora Gigi não soubesse, em três meses já estaríamos morando em
outra casa, que seria nossa, não como essa nossa casa que não é nossa. Lá ela
latiria por outro quintal e eu latiria pelo mesmo sofá e pelas mesmas camas.
Não sei se levamos boa parte da vida latindo, enquanto um
gato chamado destino nos olha impassível, rindo de tudo por dentro. Talvez
seria melhor não ter chamado a atenção de Gigi, pois isso talvez evitasse que
agora eu me sentisse tão incomodado comigo mesmo. Fiquei ali absorto por esses
pensamentos.
Uns 15 minutos depois, “minha” cadelinha, talvez
enfastiada do quintal e de tudo que nele era seu, entrou em casa e voltou-se
para seu dono, ou seja, o dono dela, que sou eu, para gozar de alguns momentos
de carinho, sem estratégias ou filosofias, com a leveza que a vida propõe. O
sol que brilhava lá fora, assim como sua luz – de todos; o vento fresco
soprando lá fora – de todos; e tarde agradável e tranquila – de todos, foi
naquele momento nossa única certeza preguiçosa, sem os ruídos de nós
mesmos.
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