Gigi, o Esperanto e os sotaques
Há em casa alguns livros muito
caros a mim, que volta e meia eu abro e examino, para logo depois lançar-me
durante algumas horas diante do computador. Eles são feitos todos de palavras,
as quais, diferentemente da maioria, foram minuciosamente pensadas, examinadas
e testadas para compor uma língua planejada de nome Esperanto. Em alguns deles
verificam-se capas de cor verde ou com uma estrela de cinco pontas também verde
- símbolo do idioma. E porque, ao pegá-los, eu me torne indiferente à casa, à
esposa e ao mundo, incluindo a Gigi, esta, ao perceber até certo ponto não
correspondidos seus convites para brincar ou acarinhá-la, não consegue esconder
uma pequena decepção, temperada também, por que não confessar, de indignação e
ciúme.
Ah, o ciúme! – esse misto de
raiva, autocomiseração e sentimento de posse que, pouco a pouco, vai
alimentando uma curiosidade pelo objeto rival de tal modo que, embora procure
dissimular uma postura de indiferença, raramente não se trai com uma pergunta mansa
ou comentário, tornando assim quase audível seus próprios gritos silenciosos de
protesto.
Foi em um dia desses,
dedicados em parte ao idioma sem pátria, que a carência de Gigi, subjugando-lhe
mais fortemente as disposições psicológicas como que a solicitar-lhe
imperiosamente que me chamasse a atenção, temperando o ciúme com certa
racionalidade, perguntou-me, com dois latidos, enquanto projetava para frente
as duas patas, abaixando a cabeça e levantando as orelhas: _ Papai, o que tem
nesses livros?
Ainda que a pergunta não fosse
motivada por uma legítima vontade de saber pelo simples gosto de aprender,
nunca desprezo a possibilidade de sentir a sensação de como é bom poder falar
sobre algo de que gostamos sem que a iniciativa para apresentar o assunto surja
de nós mesmos, sobretudo quando quem pergunta é alguém que compartilha nossa
intimidade.
Com bom ânimo, portanto,
pus-me a explicar-lhe a história do idioma e de seu criador, bem como a
finalidade dessa língua neutra, suas características básicas, a organização dos
inúmeros congressos que ocorrem todos os anos em diferentes partes do mundo, o
preconceito enfrentado pelo idioma e por seus defensores, a possibilidade de
fazer amigos em outros países e tantas outras informações que iam tomando de
assalto minha mente e encadeando, em um enredo dançante e improvisado, minhas
palavras, como que a criar uma verdadeira preleção sobre o tema, certamente
tediosa a muitos, mas surprendentemente interessante à cadelinha, que ia,
aparentemente, criando comparações com seu próprio universo de experiências.
Sua inesperada atenção ao monólogo foi tamanha que, por um longo instante, ela
tornara-se indiferente ao apelo dos latidos da rua, cuja força costumeiramente
irresistível a impelia ao quintal para tomar parte na louca orquestra
canina. Seu olhar também dava indícios
de que seu coração desarmara-se do ciúme inicial.
Eu, um entusiasta da língua
internacional, então pensava com quase indisfarçável júbilo: vitória do
Esperanto! E maior foi minha alegria ao notar que Gigi interessara-se, desta
vez com a saudável curiosidade, pela história de Zamenhof, o médico polonês que
o criara no século XIX. Contei-lhe, então, o que sabia sobre o homem que
idealizara a possibilidade de uma relação mais fraterna entre os povos por meio
de uma língua destituída de nação, idioma que somente assim poderia ser neutro;
falei-lhe sobre as investigações no campo linguístico que haviam permeado a
infância desse grande humanista, relatei as dificuldades por que passara, sua
abnegação e empenho para concretizar seus ideais, enfim, empenhei-me numa
verdadeira cruzada para converter minha filha ao ideal esperantista, não de
maneira calculada e demagógica, mas vibrante e apaixonada, algo próprio aos
ideais que nos comovem todas as fibras da alma. E ela ouvia, e seus olhinhos
pediam-me mais e mais historinhas (que certamente é o que eram para ela), pois
ela sempre pedia-me histórias, fosse para dormir, após acordar e, se possível,
para colorir-lhe o dia. E pensar que fora uma pergunta ciumenta o instrumento
de comunhão entre interesses que, como o movimento dos astros no céu, os fez se
alinharem harmonicamente. Esperanto, historinhas, atenção, instrução, pai e
filha – eram os elementos dessa partitura celeste, pois a sensação que ali
pairava era justamente a de leveza e paz.
Pouco mais havia a ser dito de
minha parte, no entanto, considerando a inteligência que habitava aquela
cabecinha questionadora, resolvi valorizar-lhe também o repertório de
experiências e reflexões, dando um tom de conversa àquilo que considero que
deva ser a relação mais proveitosa entre pais e filhos. Para isso,
perguntei-lhe sobre uma afirmação que eu já lera, há muito, em algum livro
esperantista: _ É verdade, filha, que os cães se entendem em qualquer parte do
mundo, pois seus latidos não diferem de um país para outro?
Ela respondeu-me com franqueza
que nunca conhecera nenhum cachorro estrangeiro para saber se isso era de fato
verdade, porém, em seu íntimo, ela sentia que estava diante de uma verdade,
ainda que nunca houvera pensado sobre o assunto. Contudo, comentou algo que me
arrepiou.
_ Sabe, papai, se os outros
cães de outros países se comunicam como nós daqui, eu não sei, mas o que posso
te dizer com certeza é que todo cachorro tem um sotaque que comunica tanta
coisa que é até difícil de explicar. É um sotaque no latido e outro no
silêncio. Quando um cão velho de rua late e intercala seu latido com pausas
silenciosas, nós, outros cães mais jovens, nos sentimos quase em uma verdadeira
solenidade. É como se painéis quase reais se formassem com seus latidos,
enquanto o silêncio tratasse de colori-los. Vemos ruas, dias, noites, pessoas
boas e más, perseguições, fome, sentimos cheiros e a umidade a enxarcar-nos as
patas e os pelos nos dias chuvosos, o ar quente e a poeira cortante a castigar
nossos focinhos, sentimos também a ternura de afagos e o incômodo de empurrões,
ouvimos palavrões e palavras de carinho e, às vezes, até o assovio do vento nas
casas e nas folhas das árvores, sentimos o corpo coçar como se tivéssemos sarna
e pulgas, e, por fim, prenunciamos ela, a morte, o grande mistério... Papai, é
uma coisa espantosa, é um frio na alma e um calor no coração, é como uma
pregação e um consolo... Mas cada cão tem um sotaque, e cada sotaque revela um
universo.
Isso que ela contou, claro que
aqui adaptado às palavras humanas, fez-me pensar se, em nosso (humano?) mundo,
os sotaques também não nos revelam paisagens e histórias distantes.
Como seria bom poder enxergar
também esses painéis e testemunhar o que, não importa a língua, nem sempre a
palavra é capaz de expressar...
La trian de aŭgusto, 2012.
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