segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Gigi, o Esperanto e os sotaques

Gigi, o Esperanto e os sotaques

Há em casa alguns livros muito caros a mim, que volta e meia eu abro e examino, para logo depois lançar-me durante algumas horas diante do computador. Eles são feitos todos de palavras, as quais, diferentemente da maioria, foram minuciosamente pensadas, examinadas e testadas para compor uma língua planejada de nome Esperanto. Em alguns deles verificam-se capas de cor verde ou com uma estrela de cinco pontas também verde - símbolo do idioma. E porque, ao pegá-los, eu me torne indiferente à casa, à esposa e ao mundo, incluindo a Gigi, esta, ao perceber até certo ponto não correspondidos seus convites para brincar ou acarinhá-la, não consegue esconder uma pequena decepção, temperada também, por que não confessar, de indignação e ciúme. 
Ah, o ciúme! – esse misto de raiva, autocomiseração e sentimento de posse que, pouco a pouco, vai alimentando uma curiosidade pelo objeto rival de tal modo que, embora procure dissimular uma postura de indiferença, raramente não se trai com uma pergunta mansa ou comentário, tornando assim quase audível seus próprios gritos silenciosos de protesto.
Foi em um dia desses, dedicados em parte ao idioma sem pátria, que a carência de Gigi, subjugando-lhe mais fortemente as disposições psicológicas como que a solicitar-lhe imperiosamente que me chamasse a atenção, temperando o ciúme com certa racionalidade, perguntou-me, com dois latidos, enquanto projetava para frente as duas patas, abaixando a cabeça e levantando as orelhas: _ Papai, o que tem nesses livros?
Ainda que a pergunta não fosse motivada por uma legítima vontade de saber pelo simples gosto de aprender, nunca desprezo a possibilidade de sentir a sensação de como é bom poder falar sobre algo de que gostamos sem que a iniciativa para apresentar o assunto surja de nós mesmos, sobretudo quando quem pergunta é alguém que compartilha nossa intimidade.
Com bom ânimo, portanto, pus-me a explicar-lhe a história do idioma e de seu criador, bem como a finalidade dessa língua neutra, suas características básicas, a organização dos inúmeros congressos que ocorrem todos os anos em diferentes partes do mundo, o preconceito enfrentado pelo idioma e por seus defensores, a possibilidade de fazer amigos em outros países e tantas outras informações que iam tomando de assalto minha mente e encadeando, em um enredo dançante e improvisado, minhas palavras, como que a criar uma verdadeira preleção sobre o tema, certamente tediosa a muitos, mas surprendentemente interessante à cadelinha, que ia, aparentemente, criando comparações com seu próprio universo de experiências. Sua inesperada atenção ao monólogo foi tamanha que, por um longo instante, ela tornara-se indiferente ao apelo dos latidos da rua, cuja força costumeiramente irresistível a impelia ao quintal para tomar parte na louca orquestra canina.  Seu olhar também dava indícios de que seu coração desarmara-se do ciúme inicial.
Eu, um entusiasta da língua internacional, então pensava com quase indisfarçável júbilo: vitória do Esperanto! E maior foi minha alegria ao notar que Gigi interessara-se, desta vez com a saudável curiosidade, pela história de Zamenhof, o médico polonês que o criara no século XIX. Contei-lhe, então, o que sabia sobre o homem que idealizara a possibilidade de uma relação mais fraterna entre os povos por meio de uma língua destituída de nação, idioma que somente assim poderia ser neutro; falei-lhe sobre as investigações no campo linguístico que haviam permeado a infância desse grande humanista, relatei as dificuldades por que passara, sua abnegação e empenho para concretizar seus ideais, enfim, empenhei-me numa verdadeira cruzada para converter minha filha ao ideal esperantista, não de maneira calculada e demagógica, mas vibrante e apaixonada, algo próprio aos ideais que nos comovem todas as fibras da alma. E ela ouvia, e seus olhinhos pediam-me mais e mais historinhas (que certamente é o que eram para ela), pois ela sempre pedia-me histórias, fosse para dormir, após acordar e, se possível, para colorir-lhe o dia. E pensar que fora uma pergunta ciumenta o instrumento de comunhão entre interesses que, como o movimento dos astros no céu, os fez se alinharem harmonicamente. Esperanto, historinhas, atenção, instrução, pai e filha – eram os elementos dessa partitura celeste, pois a sensação que ali pairava era justamente a de leveza e paz.
Pouco mais havia a ser dito de minha parte, no entanto, considerando a inteligência que habitava aquela cabecinha questionadora, resolvi valorizar-lhe também o repertório de experiências e reflexões, dando um tom de conversa àquilo que considero que deva ser a relação mais proveitosa entre pais e filhos. Para isso, perguntei-lhe sobre uma afirmação que eu já lera, há muito, em algum livro esperantista: _ É verdade, filha, que os cães se entendem em qualquer parte do mundo, pois seus latidos não diferem de um país para outro?
Ela respondeu-me com franqueza que nunca conhecera nenhum cachorro estrangeiro para saber se isso era de fato verdade, porém, em seu íntimo, ela sentia que estava diante de uma verdade, ainda que nunca houvera pensado sobre o assunto. Contudo, comentou algo que me arrepiou.
_ Sabe, papai, se os outros cães de outros países se comunicam como nós daqui, eu não sei, mas o que posso te dizer com certeza é que todo cachorro tem um sotaque que comunica tanta coisa que é até difícil de explicar. É um sotaque no latido e outro no silêncio. Quando um cão velho de rua late e intercala seu latido com pausas silenciosas, nós, outros cães mais jovens, nos sentimos quase em uma verdadeira solenidade. É como se painéis quase reais se formassem com seus latidos, enquanto o silêncio tratasse de colori-los. Vemos ruas, dias, noites, pessoas boas e más, perseguições, fome, sentimos cheiros e a umidade a enxarcar-nos as patas e os pelos nos dias chuvosos, o ar quente e a poeira cortante a castigar nossos focinhos, sentimos também a ternura de afagos e o incômodo de empurrões, ouvimos palavrões e palavras de carinho e, às vezes, até o assovio do vento nas casas e nas folhas das árvores, sentimos o corpo coçar como se tivéssemos sarna e pulgas, e, por fim, prenunciamos ela, a morte, o grande mistério... Papai, é uma coisa espantosa, é um frio na alma e um calor no coração, é como uma pregação e um consolo... Mas cada cão tem um sotaque, e cada sotaque revela um universo.
Isso que ela contou, claro que aqui adaptado às palavras humanas, fez-me pensar se, em nosso (humano?) mundo, os sotaques também não nos revelam paisagens e histórias distantes.
Como seria bom poder enxergar também esses painéis e testemunhar o que, não importa a língua, nem sempre a palavra é capaz de expressar...



La trian de aŭgusto, 2012. 




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