segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Gigi e o sonho com o homem pobre

Gigi e o sonho com o homem pobre

   Naquela época morávamos no Paraná, na cidade de Londrina, num bairro feito de fileiras e mais fileiras de casas. Para cada casa, quase que se podia adivinhar um cachorro, fosse por apreço à amizade do cão, fosse pelo apreço à segurança apenas – ou seja, sem amizade do cão. E era fácil identificar essa diferença. Para os mais sensíveis, bastava mirar o olhar dos pobrezinhos; para os nem tão familiarizados com as expressões caninas, o jeito era analisar a relação matemática: espaço do quintal, dividido pelo tamanho do animal, somado à corrente; tudo multiplicado pela quantidade de horas na corrente mais a sujeição a intempéries como frio e chuva. E como consequência dessa relação bárbara entre bicho e ser (entendam como queiram), quem poderia alegar que muitos animais não precisam da ajuda de Deus, já que deixaram de contar, há muito, com a consideração do homem? Quem poderia, neste mundo de homens, pregar as bem-aventuranças aos bichinhos?
   Nunca me havia feito essa pergunta e, na verdade, hoje só a repito, pois quem a fez a mim primeiro foi Gigi, num fim de tarde quase frio, em que os hinos de uma congregação próxima eram entoados melancolicamente ao Senhor de todas as criaturas. Devo admitir que o bairro onde morávamos realmente possuía uma apelo ecumênico, como é o caso de muitos outros bairros daquela e de outras tantas cidades do Brasil. Isso porque, em um raio de não mais de 200 metros, qualquer um ali poderia contar com o auxílio espiritual de uma casa espírita, de uma igreja católica, de uma congregação cristã, de uma igreja batista, de uma igreja ou mais igrejas neopentecostais, de um centro exotérico – como estava escrito na placa -, e alguns bares. E se me refiro aos bares, é porque cada templo congrega seus fiéis, e estes parecem ser os mais assiduamente frequentados por homens imberbes ou com prateadas cãs.
   Como se não bastasse, nas diferentes horas do dia, um templo maior, que é a natureza, também ali ostentava seus objetos, verdadeiros convites ao culto do Criador. À noite, frequentemente viam-se lua e estrelas, como Deus as fez também para a contemplação de seus seres. E nela, o orvalho, que embora a ciência acuse que não, dava sinais de visitar-nos do infinito do céu, assim como os raios do Sol o fazem pela manhã, desde os primeiros instantes que começam a tingir o horizonte sobre os montes. Neste templo maior, até os animais participam, cada um à própria maneira, numa louvação diária, na celebração da vida e da morte, melhor entendida por eles, que são livres de tabus. E isso tudo tínhamos ali, bem à porta de nossa casa, a serviço de nossas mentes e corações, sendo que o mesmo aplicava-se a Gigi. Sem contar as árvores, testemunhando com diferentes flores os benefícios do dom da vida.  Entre nós, no entanto, quem parecia melhor compreender esse templo maior era Gigi, que no quintal da frente, logo pela manhã, espreguiçava-se, inspirava profundo e punha-se a entreter-se com o som do vento nas folhas das árvores, com o canto dos pássaros e até com os rasantes dos mosquitos.
   Contudo, a contemplação da Criação não é suficiente aos seres que pensam, pois estes precisam, sobretudo, de palavras, de gestos e ações que os façam sentir ligados à grande obra do universo. Talvez seja por isso que um dia, sem conhecer essa explicação para o que sentia, Gigi tenha manifestado a vontade de encontrar essas sagradas palavras, ingredientes do pão da vida. Veio, portanto, procurá-las em sua grande e única referência para assuntos transcendentes e filosóficos, eu – porque todo pai é uma autoridade, até – e principalmente - naquilo que ele mesmo não sabe. 
   Ao final da tarde, nos dias de culto, era comum ouvir gradativamente os latidos dos cães subindo a rua, anunciando a marcha suave e cadente de alguns crentes, que iam, cada um na companhia de sua bíblia, tranquilos, mas resolutos, em direção a suas igrejas. Dessa anunciação febril de latidos, por motivos que só a Gigi conhece e não revela, ela mesma participava, enquanto pudesse enxergar do quintal os últimos passos dos fiéis a sumir na esquina. Em outros momentos, eram diferentes fiéis que se uniam, às vezes aos pares, principalmente aos domingos, para irem à missa.
   O observar desses movimentos em direção a locais nos quais se fala sobre Deus fez que Gigi, melhor conhecedora do templo da natureza, voltasse sua atenção a questões metafísicas e teológicas. Foi quando latiu-me perguntas, não sobre Ele, mas sobre o que ocorria nas igrejas. Ela ouvira da boca de cães mais livres que, dentro delas, cães e gatos não têm vez. Expliquei-lhe que, de um modo geral, isso era verdade, embora em algumas culturas existam templos dedicados aos animais.
Como explicações geralmente  semeiam novas dúvidas, lá veio mais uma: em algum templo ou igreja, os humanos falam aos animais ou conversavam e congregam com eles? Como, até onde sei, isso não ocorre, contei-lhe que, se isso poderia ser considerado um privilégio, de fato eu nunca tivera notícias de que tal coisa existisse.
Virando o rostinho desiludida, como que a pôr termo à conversa, Gigi já ia voltando-se ao quintal, quando eu, pesaroso por vê-la assim tão tristonha, lembrei-me de um caso que a mim era único; chamei-a: “Gigi, mas existiu um homem que falava de Deus aos animais, fossem eles peixes ou aves, e até houve um caso com um lobo feroz e faminto!” – ela abanou o rabinho e retornou atenta para minha companhia, como a pedir-me com os olhinhos que lhe contasse mais.
Não lhe neguei uma longa história sobre Francisco, um jovem talentoso da cidade de Assis, que deixara o conforto da riqueza para viver entre os pobres, distribuindo os tesouros da fé. E enfatizei a ela: “aos animais também, principalmente àqueles mais dóceis que se chegavam espontaneamente a ele.”  - ela mal escondia a alegria, permitindo que eu entrevisse em sua face os altos voos a que entregava sua imaginação.
Contei-lhe também sobre Clara e o amor dos dois, e imaginei histórias em que os animais conversavam com o homem puro e bom que foi Francisco. Criei diálogos que, se não existiram, poderiam tranquilamente ter acontecido. E assim as histórias foram emendando-se umas nas outras de modo a criar um sentimento de conforto naquela criaturinha bela que, embora não soubesse, apresentava frequentemente a mim um sentimento de religação com o Pai. E ela adormeceu.
Segundo vim a saber mais tarde, sonhou com um homem pobre, que em farrapos caminhava descalço num campo de vegetação macia, em sua direção. Ele cantava uma música suave, simples e bela, e vinha com outros tantos bichos, que, se não fosse pela tranquilidade inspirada por ele, a fariam fugir ligeiro. Mais pertinho, como ela mesma me contou, ele a colocou sobre seu colo e cantou-lhe uma música improvisada só para ela, que a foi enchendo de paz e esperança num mundo sem quintais nem portas, onde Paraíso e Terra seriam dois nomes para um mesmo lugar. “Paizinho, tinha com ele tantos pássaros machucados, cães magros e coxos, bichos de circo com marcas de açoite, gatos caolhos, bois, porcos, mulas – e uma felicidade sem fim em todos nós. Era Francisco, não era?”
Dei um beijo no alto de sua testinha, deixando que pairasse um silêncio solene. Certamente não poderia responder-lhe o contrário...

    

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